Deixou a porta do quarto entreaberta para que entrasse apenas um bocado do infinito. Vingava-se assim de toda a ansiedade contida e dificilmente disfarçada que lhe perseguia desde os sonhos juvenis. Estava febril e mal podia levantar-se para beber água. Tropeçou em si, quase caiu. Não caiu por estar deitado e atropelado apenas por pensamentos. Olhou em volta mais uma vez, e outra, e mais outra, e não reconhecia aqueles objetos todos como seus. Eles estavam tão distantes. Pensou na morte. Como seria possível objetos sobreviverem a ele próprio? Era indecente. Aliviou-se dedicando então o olhar aos objetos mais queridos. Ainda assim, a indecência do fato permanecia. Afastou os pensamentos da morte. Pra que? Ela viria, ainda que impensada. Pegou um livro e notou que o sabor já não era o mesmo. Gosto amargo de uma literatura que nada lhe dizia. Ele precisava de algo mais denso, intenso, agudo, cortante. Certamente não era o caso daquele livro. Passou em ordem alfabética toda a sua biblioteca. Permanecia deitado, imóvel. Tocaram a campanhia. Foda-se, pensou. Iria sair daquela droga de cama para sua sempre adiada vida extraordinária. E ele sabia que aquela visita, aquela pessoa, que exatamente àquela hora sempre tocava a campanhia, não iria lhe levar sequer ao mínimo vestígio da vida invejável que ele sempre planejara. Mas e depois, como iria explicar-lhe o porquê não abrira a droga da porta? Foda-se o depois - pensou. Não podia mais adiar. Tinha que sair daquela cama direto para vida lá fora. Mas o máximo que conseguia era ir até o computador e dedilhar amostras grátis de um mundo que já não era o seu. Em qual momento trocara de mundo? Será que momentos depois de recebido o laudo médico? Como, de repente, poderia habitar um plano tão diferente dos outros? O que mais lhe doía era o indisfarçável olhar de piedade de todos, absolutamente todos eles. Não entendiam que aquela não era uma forma de amor? Os mais íntimos sequer sustentavam o olhar. Muitos se admiraram da transformação que lhe ocorrera tão repentinamente. De amável ele tornara-se alguém intolerável. E assim se comportava de forma consciente e calculada. Vinha se aprimorando dia-a-dia. Vez ou outra simulava ataques de dores imaginárias apenas para testar seu enfermeiro. Era sua forma de destruir toda a piedade que os outros lhe dedicaram quando souberam da notícia. E ele, longe de se constranger satisfazia-se com os poucos e masoquistas amigos. Mas aquela visita constante e rotineira que anunciava o som da campanhia lembrava-lhe que precisava se esmerar em suas táticas. Nem toda a maldade tecnicamente preparada fora capaz de atingir aquela pessoa, que sempre, todos os dias vinha visitar-lhe. O que fazer? Poderia fingir-se de morto. Riu-se, pois ainda não morrera e restava-lhe certo pudor ao imaginar os bombeiros arrombando-lhe a porta do apartamento e constatando que ele ainda estava ali, vivo. Ou então poderia matar-se de vez e assim aproximar seu fim anunciado. Com que finalidade divertia-se sendo uma pessoa má? A campanhia não parava de tocar. Resolveu abrir. – Bom dia mamãe! Disse em tom amável.
05/03/2007
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Um comentário:
Apesar de essência distinta, esse seu título me lembrou uma antiga história-poema, meu "Cheiro de Infinito" (ver em: http://cadernodiversos.blogspot.com/2009/04/cheiro-de-infinito.html ).
Viste: enquanto tu desejavas, eu sentia o mesmo cheiro, infinitamente.
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