28/03/2007

Meu professor me matou.

Fui ameaçado de morte por um professor. Não dei importância. Pensei que se tratasse de blefe, desequilíbrio de alma inútil. Mas não, ele percebeu, não sei como. Talvez no meu olhar que fitava inocente sua mediocridade há algumas horas-aula. Meu corpo naquela sala era mais um, pensava eu. Nunca fiz questão de exibir discordâncias. Além do mais, eu o achava até esforçado na sua pequenez d’alma. Ele sempre se apresentava muito distinto no vestir, camisa escondendo os pulsos e sua sexualidade inexistente. Era pai de família, filho de pais infelizes e fez doutorado a duras penas, sem bolsa. E porque eu? Logo eu? Disfarçava-me de gente comum pra não dar na vista. Protegia-me. Como diabo ele soube onde estavam guardados meus pensamentos? Trazia-os comigo em pasta comum, daquelas de promoção, e jamais me afastava dela por muito tempo. Mas um dia, um dia qualquer, deixo a pasta na carteira e saio para mijar antes do início da aula. Quando retorno, o vejo lendo, ele leu tudo. Não titubeou, o revólver já estava lá, sob a camisa passada. Atirou. Acertou-me em cheio.

Foda-se! - era a verbo.

Enfurecida, entrei em casa rasgando todos os laços, arrancando raízes, sublimando desejos, atenuando culpas, cegando a memória. Nada deveria ficar intacto até que meu sangue parasse de ferver. E você era o alvo. Atirei nas sombras das lembranças para implodir tudo o que explodia meu peito no devagar dos dias. Foda-se! - era a verbo. Cale-se! - era a ordem. Nunca mais! - era tudo o que deveria acontecer. Minha paz de volta - era o meu objetivo. Pus-me sombria até conseguir a certeza insana da vontade de desaparecer pra longe de ti. Os presentes não quebrei, nem destruí – vendi, para ofender-te no teu modus vivendi e te relevar o meu avesso. As idas e vindas dos nós na garganta enfim se desfaziam. Fiz esforço para pensar contra meu corpo e deixá-lo fora daquela história toda. O dia era aquele. Toca a campainha, entra você e um amigo imbecil. Meu Deus, porque nunca o chamei de imbecil?! Porque nunca revelei assim, de pronto, como uma criança ou um louco, que eu o achava um completo imbecil. Fui até a porta. Abri. – Entrem. Sorri cínica. E completei - um imbecil e um ex-marido juntos! O tempo parou de respirar e dois sorrisos constrangidos preencheram a sala. O cheiro da traição empestou o ar e exalava de seu sorriso. O amigo imbecil era o álibi. Fim.

Desfiei todo o rosário dos desesperados: consultei mapa astral, amigos pra conversar, insônia, ginástica pra auto-estima, bares, álcool, muito álcool, alma corroída, perna desobediente, olhos vermelhos, choro sem fim, emagreci, me culpei, te maldisse.


E hoje, depois de tanto tempo, eu e você aqui nesse motel, me desconforto e te pergunto: - Como vai sua vida? E enquanto conversamos me digo em silêncio: - Caralho, acabou mesmo! Felicito-me.



25/03/2007

Domingo... banal...

Aquieto-me como o domingo que finda. Daqui posso ver o mar e agora ouço também o sino da Igreja do Carmo anunciando o silêncio do centro de Fortaleza. O agora é quando? Não... não estou melancólica. Apenas sinto um estranho chamado da escrita para traduzir esse momento banal. Já que não é eficaz minha corrida contra o tempo para sentir no correr das horas a repetição do sabor efêmero do momentos de intensidade, então, escrevo. Presentifico o banal, o corriqueiro, o domingueiro. Isso beira ao tédio? Não. É quase bela a solidão do momento banal. Olho em volta e fixo-me nas cores. Quem precisa delas? Estão por toda parte. Para que servem num momento como esse? E eu, para que sirvo? Aos outros? Poucos. Sinto-me também banal. Somos todos? Esse fascínio pelo Tempo não me larga. Mas é melhor acordar meu corpo antes de submergir no banal. Ele se movimenta e me movimenta. Ajuda-me na fuga do agora. Vou suar. Vou sentir.

A ENCOMENDA

Ontem vieram me entregar um corpo, ele vinha em uma caixa comum e já não cheirava bem. No dia em que me mataram achava que era imortal e me vendo ali, em pedaços disformes, deduzi que não. Peguei a caixa e fui enterrá-la no quintal da minha alma, no lugar mais escondido dos olhares da memória. Tive medo que viesse à tona a mesma ânsia de vômito que tive no instante em que me entregaram a caixa. Então, cavei mais fundo, e mais fundo e mais fundo. Não queria estragar com o amargo da morte os próximos beijos de um novo e pleno amor.
Depois que me entregou a caixa virou de costas o entregador. Não tive tempo de agradecê-lo minha morte. Queria dizê-lo que ele me fez enfrentar meu diabo e do quanto eu precisava disso pra entender que não era feliz. Depois que morri ainda pude ouvir ao longe o estalar dos beijos, não aquele que me foi mortal, mas os outros, aqueles que um dia me fizeram crer que eu era imortal, uma amada imortal. Hoje tento ser amante de mim mesma, tornando-me melhor e mais bela pra vida, minha vida. A caixa vai permanecer no meu abismo que não deixo ninguém ver, porque é escuro e triste. E eu vou estar olhando para o céu, aguardando tempos melhores e beijos imortais. Beijos de amantes que não me matem. E por isso hoje ressuscito de ti, mais plena, melhor. Obrigada por ter me matado, me fez ver que minhas mãos sempre estiveram vazias a espera da caixa. Finalmente chegou.

21/03/2007

Laçinhos cor-de-rosa, pra você amor!

A morte tem sido minha obsessão há algum tempo, e você sabe disso, embora não tenha tendências suicidas. Não se trata de medo da morte e sim de medo do fim da vida antes que ela se mostre em todas as suas virtudes. Já discutimos tanto isso. Você se zanga. Não quer falar. Sua ingenuidade me comove. Seus rituais religiosos também. Mas isso não afasta a força do acaso. Os anos que virão me amedrontam, pois tenho medo de não me tornar um Eu Pleno nesse tempo que me resta. E você, não quer falar. Nunca quer falar. Mas amanhã, quando você chegar do trabalho vai ver que espalhei laçinhos cor-de-rosa na casa por toda parte, pra te mostrar que a ficção pode invadir nossa realidade e nos fazer duvidar dessa realidade que não passa de ficção diante da morte. Então que tal você também colocar laçinhos cor-de-rosa no meu caixão?! Se eu morrer primeiro, é claro. Aí verá que até a dor pode ser invadida pela ficção. Imagine você que não há nada de mais inusitado que um caixão repleto de laçinhos cor-de-rosa ladeando o corpo. É engraçado. Você costumava não me levar a sério só porque eu ria demais, ria de tudo e, sobretudo ria da morte. Ainda rio, e muito. Nada mais patético que esse negócio de morrer. Nada mais mágico que esse negócio de viver. Então decidi hoje que no seu próximo aniversário vou te presentear com uma foto minha onde eu estarei com um enorme laço cor-de-rosa na cabeça. Será um belo laço de cetim, só pra eu te ver rindo outra vez e sempre. Faz tempo que não te vejo assim. E me odiando de mentirinha por eu amar o ridículo, o patético, o que não combina. Não gosto da cor rosa que você adora, mas por amor, meu amor, até mando pintar meu fusca de cor-de-rosa só para te agradar e te amar ainda mais por te ver gargalhando. Rindo do meu jeito de querer te agradar. Decidi agora que vou te dar hoje essa carta que era só pra semana que vem. E devo terminá-la logo porque daqui vou direto pra oficina pintar meu carro. Assim ele vai combinar com esse papel cor-de-rosa que vou te entregar depois que você ouvir a buzina do meu fusca cor-de-rosa. Desce amor e vem receber minha carta de amor agora. Estou te escrevendo do meu fusca, de frente da tua casa. Não posso esperar mais pelo teu sorriso, desce e vem receber tua carta e meus beijos, também cor-de-rosa. E se assim você quiser, amor, iremos agora, juntos, pintar meu o fusca, porque tudo isso é o contrário de morrer. Desce. Bi bi Bi bi Bi biiiiiiiiiiiiiii............

16/03/2007

Rumo ao reencantamento do mundo... ao Dragão. Vamos?


Amolo minha faca para cortar a indescritível dormência da pós-modernidade. Haja facão! Tento fazer fronteira com o reencantamento do mundo, mas a cerca das notícias não me deixa. Sabe-se lá o que se passa para além das notícias. A vida? Vibra muito tudo o que não sai na televisão. Aceleramos rumo ao coletivo que já não é mais político sem deixar de sê-lo.
E enfim, quando chega a sexta-feira vamos todos ao centro do dragão, mas não é no centro que ficamos, pois o que vibra é seu entorno. O de dentro é apenas passarela fria que leva rumo aos encontros. É em busca deles que vamos. É em busca daqueles a nós destinados que vamos. Ainda que por uma noite, teremos, seremos, celebraremos. Nos encontraremos ou não. Antes disso, no comesinho dos dias, alimentamos nossa alma e vaidade de expectativas vãs. Cabelos e barriga em ordem ou não. Lá vamos nós desafiando os magazines e as beldades desejantes. As afrontamos com nossos corpos reais, mas nem por isso deixamos de consumi-las em silêncio. O que diriam em uníssono nosso inconsciente coletivo diante das bancas de revistas? Melhor calar para não gritar o desejo da beleza photoshop. E o corpo feminino, que tudo vende, segue vendendo também angústias veladas e ansiedades disfarçadas que são distribuídas como brindes dos demais artefatos. Tantos. São tantos os artefatos como os fatos da vida. Vida dentro do artefato até o talo, até o caroço, até o pescoço. Vida afogada em mercadorias-alegorias. Fundo, tão fundo que já não se ouvem o gritos. Ouve-se apenas os murmúrios vindos dos consultórios pré-à-porter que não param de simular a cura para o incurável.
Ainda assim vamos em busca do mundo reencantado. Vamos?






Na casa dos jogos infantis rodopiava, hoje não encontro morada. É madrugada e chove na cidade de Fortaleza. Sinto cheiro de milagre. Como é possível que todos, absolutamente todos, não se entreguem ao delicioso banho que vem do céu? Não, todos não, mas talvez alguns olhos miúdos ainda se arrisquem ao riso frouxo em algum canto dessas paragens, longe ou perto dos olhares maternos.

08/03/2007

No Dia Internacional da Mulher, ouviu tiros!


O corpo feminino ainda vai reagir a toda essa opressão das roupas e enfim liderar uma revolução corpénica – coppola – corpuda – corporal – corpulenta – corpazil. Que corpinho! Detinha-se em um belo par de peitos. Adorava o corpo feminino apesar das imagens ainda marcantes de uma adolescência plena de homoerotismo. Era assim que pensava, em voz alta, enquanto folheava algumas revistas ditas masculinas. Sua perspicácia não ia além do óbvio. Estava à toa. Acabara de chegar em casa e jantar. O trabalho hoje até que não foi dos piores dias. Porque revistas masculinas se na verdade estão cheias de mulheres nuas? Cismou. Essas é que deveriam ser chamadas de revistas femininas, ou melhor, pornô-femininas. As feministas que se fudessem, mas mulher nua era fundamental para todos, para tudo. Inclusive para elas próprias. Lembrou da sua ex e mais marcante namorada que lhe dera um fora pelo seu primo idiota. Idiota e funcionário público com estabilidade, coisa que ele não era. No fim das contas deu razão a ela. Ele também perseguia a estabilidade nos jornais de concursos públicos. De repente ouviu tiros! Vinham da casa dela. Do apartamento ao lado de sua vizinha linda e loura que era oxigenada e sempre com chapinha, mas sexy, muito sexy. Abriu a porta do apartamento num pulo e foi até lá. Ela estava com um vestido de cetim vermelho. Vestido ridículo. Vestido rasgado e com cara de alugado para baile de formatura. O cabelo recém saído de mais uma chapinha pingava sangue combinando com o vestido - reparou. Puta merda! Que porra tinha acontecido naquele apartamento e porque ele, justamente ele, tinha de ser a testemunha escolhida daquela cena de folhetim? Deus não é justo – pensou. A loura tremia e o nome dela não lhe vinha à cabeça nem a pau. Revólver em punho ela olhava pra ele com espanto e horror com se fora ele o assassinado. O morto estava ali bem aos seus pés e ele pateticamente sem conseguir pronunciar nada. Seu gesto foi o mais imbecil e insensato possível. Coisas que um homem só faz por uma mulher. Que mulher! Foi até ela e tomou-lhe da mão o revólver. Abraçou-a. Pela primeira vez, abraçava-a. E o revólver encostado à cintura da loura estava sobrando naquele abraço. A única coisa que lhe veio à mente foi: Feliz dia internacional da mulher! Dito de forma tímida e ao pé do seu ouvido. É que além de gostar de louras ele era fã das vilãs de revista em quadrinho.

Psiu! Silêncio!



É necessário fazer silêncio de si mesmo para permitir vez ao espanto. Insistem em bailar inúmeros pensamentos não-convidados e ainda assim não desconsertam o tempo presente. Fico cismando que essa tal de vida me prometeu plenitude de gente, gestos e gozos. Esse negócio de carpe diem está difícil de cumprir. Hoje vi na parada de ônibus borboletas azuis brilhantes aos milhares. Sem darem-se conta de que estávamos todos ali, foram-se como vieram após desnortear por instantes um cotidiano em inevitável declínio de almas. O trânsito indiferente seguiu seu curso e redistribuiu todos aqueles que não podiam se atrasar. O céu em seguida tornou-se marrom. O vazio do dia era tamanho que ninguém reparou nas borboletas e no marrom do céu. Apenas o menino recuperado da cola ao final da tarde, ria-se em cima da marquise. Riso rasgado, ignorante e fétido. Apenas ele olhava para o céu àquela hora. Iniciava o barulho das portas de comércio descendo. Tudo era pleno do mesmo que o centro comercial das grandes cidades produz. Gente aos milhares que jamais imaginavam sua chegada. Ela chegou, a grande onda chegou. Sem anúncio prévio na TV ela atrasou aqueles que nunca se atrasavam. Ela silenciou quase todos após seus gritos do mais puro espanto. Calaram-se puros e impuros. E então, fez-se finalmente o magnífico silêncio. Milhares de minutos de silêncio denso e pleno.

07/03/2007

Você... ainda bem...



Desequilíbrio existencial.
Ainda bem que não é diário.
Memórias cortantes.
Ainda bem que existe o esquecimento.
Timidez intransponível.
Ainda bem que existe o álcool.
Delírios profundos.
Ainda bem que o corpo fala.
Abismos repentinos.
Ainda bem que existe sorte.
Solidão discreta.
Ainda bem que existem praças.
Desespero real.
Ainda bem que existe família.
Sofrimento passional.
Ainda bem que existem amigos.
Dias de trabalhos inúteis.
Ainda bem que existe dinheiro.
O mundo ao contrário.
Ainda bem que existe você.



05/03/2007

DESEJO DE INFINITO...

Deixou a porta do quarto entreaberta para que entrasse apenas um bocado do infinito. Vingava-se assim de toda a ansiedade contida e dificilmente disfarçada que lhe perseguia desde os sonhos juvenis. Estava febril e mal podia levantar-se para beber água. Tropeçou em si, quase caiu. Não caiu por estar deitado e atropelado apenas por pensamentos. Olhou em volta mais uma vez, e outra, e mais outra, e não reconhecia aqueles objetos todos como seus. Eles estavam tão distantes. Pensou na morte. Como seria possível objetos sobreviverem a ele próprio? Era indecente. Aliviou-se dedicando então o olhar aos objetos mais queridos. Ainda assim, a indecência do fato permanecia. Afastou os pensamentos da morte. Pra que? Ela viria, ainda que impensada. Pegou um livro e notou que o sabor já não era o mesmo. Gosto amargo de uma literatura que nada lhe dizia. Ele precisava de algo mais denso, intenso, agudo, cortante. Certamente não era o caso daquele livro. Passou em ordem alfabética toda a sua biblioteca. Permanecia deitado, imóvel. Tocaram a campanhia. Foda-se, pensou. Iria sair daquela droga de cama para sua sempre adiada vida extraordinária. E ele sabia que aquela visita, aquela pessoa, que exatamente àquela hora sempre tocava a campanhia, não iria lhe levar sequer ao mínimo vestígio da vida invejável que ele sempre planejara. Mas e depois, como iria explicar-lhe o porquê não abrira a droga da porta? Foda-se o depois - pensou. Não podia mais adiar. Tinha que sair daquela cama direto para vida lá fora. Mas o máximo que conseguia era ir até o computador e dedilhar amostras grátis de um mundo que já não era o seu. Em qual momento trocara de mundo? Será que momentos depois de recebido o laudo médico? Como, de repente, poderia habitar um plano tão diferente dos outros? O que mais lhe doía era o indisfarçável olhar de piedade de todos, absolutamente todos eles. Não entendiam que aquela não era uma forma de amor? Os mais íntimos sequer sustentavam o olhar. Muitos se admiraram da transformação que lhe ocorrera tão repentinamente. De amável ele tornara-se alguém intolerável. E assim se comportava de forma consciente e calculada. Vinha se aprimorando dia-a-dia. Vez ou outra simulava ataques de dores imaginárias apenas para testar seu enfermeiro. Era sua forma de destruir toda a piedade que os outros lhe dedicaram quando souberam da notícia. E ele, longe de se constranger satisfazia-se com os poucos e masoquistas amigos. Mas aquela visita constante e rotineira que anunciava o som da campanhia lembrava-lhe que precisava se esmerar em suas táticas. Nem toda a maldade tecnicamente preparada fora capaz de atingir aquela pessoa, que sempre, todos os dias vinha visitar-lhe. O que fazer? Poderia fingir-se de morto. Riu-se, pois ainda não morrera e restava-lhe certo pudor ao imaginar os bombeiros arrombando-lhe a porta do apartamento e constatando que ele ainda estava ali, vivo. Ou então poderia matar-se de vez e assim aproximar seu fim anunciado. Com que finalidade divertia-se sendo uma pessoa má? A campanhia não parava de tocar. Resolveu abrir. – Bom dia mamãe! Disse em tom amável.