Vamos sim, comer Caetano.
Sua magreza ágil
Seus cabelos brancos
Seu sorriso largo
Suas pernas finas
Sua língua solta
Sua pan-sexualidade musical
Seus experimentos sonoros
Seus rocks, seus sambas
Suas palavras geniais
Seu romantismo tropical
Sua Paulinha sem graça
Seu despojamento
Sua meninice
Sua velhice
Sua falta de caretice
Sua caetanice
Vamos sim, comer Caetano Veloso.
Sem palitar os dentes
Sem nos preocupar se estamos sendo indecentes
O que importa é a ginga, de sua mão na cintura
O que importa é a rima, da pós-modernidade caetana
A brasilidade Caê, quem vai querer?!
“Vamo cumê, vamo cumê Caetano”.*
* Uma homenagem ao show de Caetano Veloso em Fortaleza (28/04) para aqueles que estiveram no inesquecível show Circuladô, no Parque do Cocó, há 15 anos atrás. Ontem, lavamos a "burra" e a alma!
29/04/2007
22/04/2007
Fake love.
Na memória da pele só aquele corpo suave e moreno, que chegando de mansinho fazia chover na cama gemidos de intenso prazer. Acuda-me o Tempo e faça desse momento um breve intervalo de noites insones. Darei giros por essa cidade praiana e vou parar na Praça do Ferreira à meia noite em frente ao Cine São Luis. Vou fixar meu olhar na Coluna da Hora e pensar em coisas práticas para desfazer-me de um nós que já não existe mais. No calçadão da Avenida Beira Mar contarei todos os passos do trajeto para desviar a atenção do meu coração pensante. Provocarei conversas com desconhecidos e a eles pedirei conselhos de bom viver. Cicatrizaria a ferida profunda quando saltasse no vazio de não mais lembrar? Ansiedade: matéria prima do falso amor.
15/04/2007
Os anos de telenovela haveriam de servir para algo.
Fim. Foi do que falou. Sem volta. Sem pressa. Só certeza. Ficou cinza. Perdeu seu arco-íris. Estava lá. Chegara. Foi de madrugada que descobriu, logo depois de um sonho. Tola. Assim se sentiu. O que dizer? Como dizer? Os filhos ainda dormiam. Deus, como os amava, pensou. Foi até o espelho do banheiro. Pé ante pé para não despertar a família. A sua família. Estranho. Por um momento se sentiu tão longe de todos. O espelho do armário refletia apenas seus anos de mulher casada. Não via nele seu ventre crescido, mas era como se o encarasse pela primeira vez de forma intensa e aguda. Tinha cinqüenta e dois anos, casara aos vinte e oito. Achou-se terrivelmente feia. Isso era grave, embora se soubesse feia há alguns anos, essa certeza, hoje, doía mais que antes. Antes quando? Quando exatamente se descobriu assim? Não lembrava. Talvez depois do segundo filho, hoje com doze anos. Num gesto mecânico saiu do espelho e sentou-se no sanitário para mijar. Foi quando lembrou do sonho com riqueza de detalhes. Antes não tivesse lembrado. Maldita memória. A cabeça entre as mãos pesou de repente mais que ela mesma. Quis vomitar-se. Fugindo de si mesma e sem usar o papel higiênico correu até a cama. Tropeçou próximo a cama. O marido acordou. Sua cara de espanto lhe causou um desprezo irremediável. Era dela o problema se havia tropeçado. Tropeçara e pronto! Que importava se era madrugada! Que importava se as crianças dormiam! Aliás, de hoje em diante eram dela todos os problemas que viessem a acontecer. Queria-se só. Uma mulher só. Com o ventre crescido, dona-de-casa, feia, cinqüenta e dois anos, quatro filhos e só. E pronto. O resto era com ela. Os anos de telenovela haveriam de servir para algo. Iria se inspirar e teria seu final próprio feliz. No fundo, sempre duvidava dos finais felizes, embora sempre nervosa torcesse por eles e assistisse as reprises no sábado apenas para ter a certeza triunfal de não haver perdido nenhum detalhe entre suas idas e vindas na cozinha sem microondas. Desta vez não poderia haver dúvidas, pois não haveria reprises. Era sua vida em suas mãos gordurosas de mulher separada. Após o espanto do marido naquela madrugada ela sussurrou - Sou só. Essa certeza não lhe permitiria gritar e assim acordar as crianças. Sem pressa. Sem volta. Foi do que falou. Fim.
Dias inglórios!
Dias de macarrão instantâneo.
Cheiro de ônibus lotado ao meio-dia.
Sabor de salário atrasado.
Dor-de-barriga de contas não pagas.
Humor de aniversário sem presentes.
Mau hálito de mentiras desnecessárias.
Impotência de doença terminal.
Gargalhadas de álcool.
Ímpeto de bares fechando.
Queimadura de desencontros.
Fumaça de desentendimento banal.
Tontura de querer alcançar o inalcançável.
Choro de final infeliz.
Esquecimento.
Viva o esquecimento!
10/04/2007
Procura-se: "Alma Afoita".
Ela resolveu sair por aí. Não chovia, fazia até bom tempo e nada de extraordinário existia naquele dia. - Volta aqui! Berrou antes que ela se fosse. E foi. Mas antes o olhou de soslaio, piscou e riu. Riu não. Gargalhou. Tudo às suas custas. Aquela “Alma Afoita” sem nenhum motivo aparente ia embora e dessa vez era de vez. Bastava! Cansou de esperar pela cura. Iria ela mesma reinventar um extra cotidiano radical, sem precedentes. Desde então o moço espalhou cartazes por todo o mundo onde se lia: - Procura-se alma rebelada de um rapaz de vinte e oito anos, estatura mediana, oferece-se recompensa em euros, valor a combinar. Espalhou, sobretudo nos aeroportos, pois ela havia dito que iria para longe. Não adiantou. Os cartazes amarelados ainda estão por lá. Silêncio. Ele espera. Cabelos brancos. Sentado. Até o fim.
09/04/2007
Menos: - Não!
É de intensidades que falo...
É de extremos que trato...
É dos limites que vou à caça...
É da ausência de medos que necessito...
É do imprevisto que traço as regras...
É das montanhas do acaso que anseia meu respirar...
É do horror e espanto que procuro não me livrar...
É do absurdo do senso comum que não sou feita...
É do cúmulo das mercadorias que me cercam que entonteço...
É da cumplicidade de amigos que sinto saudades diárias...
É do inteiro que me sacio...
É da ausência de sangue quente que fujo...
É de extremos que trato...
É dos limites que vou à caça...
É da ausência de medos que necessito...
É do imprevisto que traço as regras...
É das montanhas do acaso que anseia meu respirar...
É do horror e espanto que procuro não me livrar...
É do absurdo do senso comum que não sou feita...
É do cúmulo das mercadorias que me cercam que entonteço...
É da cumplicidade de amigos que sinto saudades diárias...
É do inteiro que me sacio...
É da ausência de sangue quente que fujo...
Então, não me venha com seu menos.
04/04/2007
E a Puta, apaixonada, disse: teu endereço sou eu.
Fiz-me rua para suas andanças desde cedo. Encontravam-me sempre por acasos de destinos desatinados. Jorravam em mim seus líquidos de um dourado quente nos momentos de aperto. Vomitaram-me tantas vezes suas ausências de vida. Da lama, os recolhi outras tantas. Quando saciados tomavam atalhos para me desviar. Fiz-me sinuosa, ajardinada e estreita para subir seu prazer. Das famílias nunca sentiam saudades em minha companhia. Em altas horas da noite, quando o prazer é mais seguro aos olhos do interdito, vinham a mim todos os insaciados. Dormiam sono leve as esposas. Delas jamais quis arrancar-lhes os nomes: Terezas, Marianas, Cláudias, Samaras, Raquéis, Paulas, Marias, Elianas, Rosanas, Elenis, Valdelices, Silvias, tantas, não importava. A elas sempre dediquei firme indiferença. Eram mulheres, e esposas, e namoradas, e mães e amavam ou não mais. De inesperada esquina veio você, atropelando-me tal qual passeata juvenil, fuga de assalto a banco, carreira de cachorro vira-lata, pressa de gravidez desfeita. Vem. Invade-me as coxias. Alaga-me de madrugada uma torrencial chuva de pele. Varre-me a memória dos outros. De todos. Passeia-me de mãos dadas e exibicionistas. Topa-me nas calçadas e cai de corpo inteiro em meu acalanto. É a ti minha procissão. Interdita-me a saudade do teu caminhar para longe de mim. Meus bueiros te gritam em uníssono: teu endereço sou eu.
01/04/2007
Aos soldados mortos: o amor.
Desde adulto sei que é proibido aos amantes o momento agudo e abissal da tristeza amorosa sob pena de classificação doentia.
Adoeço e não me interessa o diagnóstico.
Adoeço e não me interessa a compaixão.
Adoeço e não me interessa a cura.
Adoeço e brado aos soldados mortos que o amor negligencia guerras e isso o torna perigoso. É tão somente a eles que declaro meu amor, aos vivos não, pois que ainda lhes é dada a chance do ridículo:
Meu amor pula as muralhas de todas as chinas.
Meu amor é frágil como um passarinho órfão recém-nascido em plena chuva.
Meu amor envelhece sorrindo e chupando sorvete.
Meu amor rasga o silêncio da timidez e declara sua necessidade na sarjeta sem nenhum pudor.
Meu amor está pronto para ser apedrejado.
Meu amor desafia orientações sexuais.
Meu amor é ingênuo como uma criança.
Meu amor é intenso como um crime.
Meu amor não obedece ao correr das horas.
Meu amor trai as convenções.
Meu amor sacraliza o momento do coito.
Meu amor desconhece a modéstia.
Meu amor atravessa descalço desertos insones.
Meu amor desconhece estado civil.
Meu amor canta sua existência sob tortura.
Meu amor trapaceia para se manter vivo.
Meu amor resiste aos nãos.
Meu amor insiste em sims.
Meu amor é seu, ainda que não seja você o meu Amor, tão meu...
Adoeço e não me interessa o diagnóstico.
Adoeço e não me interessa a compaixão.
Adoeço e não me interessa a cura.
Adoeço e brado aos soldados mortos que o amor negligencia guerras e isso o torna perigoso. É tão somente a eles que declaro meu amor, aos vivos não, pois que ainda lhes é dada a chance do ridículo:
Meu amor pula as muralhas de todas as chinas.
Meu amor é frágil como um passarinho órfão recém-nascido em plena chuva.
Meu amor envelhece sorrindo e chupando sorvete.
Meu amor rasga o silêncio da timidez e declara sua necessidade na sarjeta sem nenhum pudor.
Meu amor está pronto para ser apedrejado.
Meu amor desafia orientações sexuais.
Meu amor é ingênuo como uma criança.
Meu amor é intenso como um crime.
Meu amor não obedece ao correr das horas.
Meu amor trai as convenções.
Meu amor sacraliza o momento do coito.
Meu amor desconhece a modéstia.
Meu amor atravessa descalço desertos insones.
Meu amor desconhece estado civil.
Meu amor canta sua existência sob tortura.
Meu amor trapaceia para se manter vivo.
Meu amor resiste aos nãos.
Meu amor insiste em sims.
Meu amor é seu, ainda que não seja você o meu Amor, tão meu...
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