21/02/2008
Ausência de cores...
Labaredas repletas de tons. Antes era assim. Agora nada me alcança. Fugi para longe em disparada e quando olhei para trás nada me perseguia. Não havia sentido no que já estava longe e o que vislumbro pela frente ainda cega pelo excesso de incompreensão. Visto-me de um dia comum todos os dias. A noite cavalgo com meus pensamentos nebulosos. Sinto-me febril por uma ausência de encanto que se instalou. A sinceridade de tudo vagueia e o desequilíbrio permanece ileso. A rota do que fazer está em algum lugar escondida na memória do futuro. Já eram os deuses todos. Ganhei uma bengala para trotar no meio das vitrines. Evito cair, pois os sentidos do levantar não viriam ao meu alcance. Salto todos os dias para fora do ter que entender, resolver, planejar, realizar. Meu canto propaga-se em gemidos num labirinto vazio. Um dia já habitei aqui, neste corpo. Hoje o carrego comigo.
28/08/2007
Meu Corpo e a Chuva...
Alterei o agora da existência passiva e inerte de hábitos que não me largavam. Caminhava uma vez mais pelo mesmo lado da rua como fazia há tempos, então atravessei para o outro de forma a causar estranhamento em meu corpo já tão acostumado comigo indo e vindo dos mesmos lugares. Fixei o olhar com um interesse concentrado naquilo que nunca me interessou. Pus-me de cabeça para baixo a observar-te por ângulo oposto, e assim, talvez entender tua estranha falta de poesia diante da vida. Comi o que antes me enojava para me observar experimentando o novo. Corri dos espelhos diários refletidos pelas falas dos mesmos amigos. Busquei outros, para que novos olhares recaíssem sobre mim e desvendassem véus escondidos. Quando vesti o não-usual vi-me em um baile de máscaras sem música e cujos convidados estranhavam-me o caminhar. Estava na mesma cidade há anos. Já era tempo de colheita de um novo ser que confundisse aquele gerado desde o início de minha memória. Pus-me a pensar o contrário de mim para renovar-me os modos de ser e de estar no tempo. Inquietei-me de uma insônia profunda que sequer faziam arder meus olhos. Fui aonde jamais havia desejado estar. Provei do gosto ruim de corpos desconhecidos para aproximar-me do meu. Queria-me diferente em uma mesma casca. Rodiei-me de estranhamentos imperceptíveis aos olhos dos já conhecidos. Ninguém suspeitava que o corpo que compunha minha figura já não era meu, já não era eu. Reinventei laços afetivos passados que nunca estiveram presentes nas fotografias amareladas. Colori um futuro incerto com as cores de um outro-eu em gestação. Fui até o fim do desconhecido de mim e parei diante do espanto que me causou descobrir que tudo eram impressões ilusórias e que o corpo, o meu corpo, era prisioneiro de um-não-conseguir-ser-outro. E a cidade era a mesma. Voltei os olhos para o chão diante do horror experimentado e não mais os tirei. Até hoje caminho olhando os pés alheios. Quedo-me aí, espantada e inerte, sentido a brisa leve dos séculos me congelarem a espinha mortal. Solto beijos às múmias e abraço as inscrições rupestres numa profunda cumplicidade mundana e invejosa. Estiro-me ao sol e espero o absurdo da chuva que se ri do calor do meu desespero de carne. Foram-se as ingenuidades. O que virá depois?
19/08/2007
Festa de cores...
Foi para longe misturar cores que fizessem os minutos dançarem num domingo cinza. Cumpria atividades vãs quando um par de olhos o fez esquecer do cinza dos domingos. Pulou para dentro daquele corpo qual criança em parque de diversões e nele fez a festa. Depois de anos se virou para o lado e ficou ele também cinza e com saudades dos primeiros olhares. Arrastava-se pelos dias o cotidiano banal aumentando a ânsia de intensidade das horas. Decidiu caminhar para longe, longe, longe, até onde os músculos dissessem não. Assim despistava o desespero e uma quase excitação o cobria de esperanças inocentes. Era noite e o frio da cidade a beira mar tornava aquele momento agudamente poético e solitário. Deparou-se outra vez, como há muito não acontecia, com os pêlos em riste. Seu corpo tremia, mas o passo inseguro não o impediu de seguir em direção ao desejo. Recomeçava novamente a festa de cores. Fechou os olhos e uma vez mais mergulhou no corpo desconhecido que fez os minutos dançarem num domingo cinza.
10/07/2007
Salve a criação que me salva
Morder a própria humanidade desnuda até que não doa mais. Observar o olhar agudo da alma em direção ao abismo do tempo. Saber que a tormenta de sentimentos é vã e que não há salvação nem lugares ideais. Encher-se de insensatez e ser sincero ao menos merecedor dos amigos. Fazer do amante o par ideal no momento ideal sem que se creia em tal ingenuidade. Suportar o silêncio da incompreensão como uma dádiva. Melhorar a vida do outro e fazer brotar acontecimentos. Aceitar o não como se fora um sim na perspectiva da longevidade e decrepitude da carne. Ser anticristão e permitir a insanidade invadir o coração que não é lógico. Inventar perspectivas outras diante da óbvia e ordeira convivência dos vivos. Soar música por todo o corpo, porque nela não alcançam os males destrutivos da aniquilação definitiva, pois há de haver som mesmo depois do fim. Acocorar-se como quem reza e encostar o queixo no joelho num abraço sem julgamentos do si imperfeito. Levitar empurrando a alma para junto das aves e nuvens que não nos precisam. Berrar o som dos destemidos que fazem girar as moralidades temporais. Saltar por cima de si mesmo se for preciso para sorrir ao menos uma vez cada dia. Esquecer, pois que assim tudo flui.
21/06/2007
Dom Juan em crise...
Eu estava lá... Era eu mesmo em cena na cama... era eu mesmo. Tudo intenso. Tudo muito intenso. E eu pensando em traição, traição, traição... Como um tambor ancestral que ecoasse em meus ouvidos o sabor de outros corpos. Feri-me de não sei quê de não conseguir parar. Feri-me de tua reprovação. Não parava: o tambor tum-tum-tum... Bem no exato momento do só nós dois ouvia o tambor. Quem poderia mudar aquilo? Era intenso: o tambor, você e meus pensamentos. Tudo intensamente real. Chamava-me de traidor. Dizia-me um safado. E eu sem culpa. Sem nenhuma culpa, pensando em outros corpos. O teu corpo me bastava naquele dia do intenso de nós dois. Mas o depois sempre vem... Sempre vem...
23/05/2007
Mulher-Diabólica
Rasgou o véu da paciência e disse a si mesmo: – É hoje. Iria se dar bem com aquela mulher que lhe dera bola no último samba. Jovem, bonito, mas não conseguia interessar-se por ninguém há alguns anos. Profunda e estranha solidão era aquela. E nenhum envolvimento lhe interessava se anunciasse algo menor que a paixão. Precisava sentir o feeling erótico do estar-se apaixonado, mas os constantes sonhos molhados lhe impeliam cada vez mais para algo simples, corriqueiro, físico. Então foi direto ao ponto: precisava transar. Um telefonema, e de pronto a mulher disse sim. Estranhou o raro e direto sim feminino. Ela era bonita, mulata quase negra, mas os traços eram afilados como o das mulheres arianas. Os cabelos curtos como os de um soldado. Usava-os espetados com gel à moda punk. O corpo longilíneo escondia-se em calças largas. Sim, tratava-se de uma mulher bonita, mas bonita como muitas, como tantas por aí. Os olhos inquietos revolviam-se agudamente quando ela ria. E ela ria sempre, te tudo, dele sobretudo, desde quando se viram pela primeira vez. Aquilo lhe incomodava no íntimo, pois atingia exatamente o âmago de sua insegurança que poucos percebiam exceto ele mesmo. No terceiro encontro marcaram no apartamento dela. Tudo estava indo bem até aquela altura da noite onde o propósito do encontro se aproxima do desfecho final: o sexo. Falavam de amenidades e a mulher, de uma segurança indiscutível e um corpo que prometia bons momentos, parecia satisfeita. Apenas parecia, pois exatamente a meia-noite, quando já estavam completamente nus no tapete vermelho da sala e as devidas carícias recém trocadas iniciaram, ela começou a gritar de forma absolutamente incoerente e indecente. Ao som de Nina Simone, seus pensamentos já tropos pelas muitas taças de vinho, ele ouvia aqueles grunhidos estranhos, ridiculamente estridentes e pasmava. Depois de aturdidos segundos atirou-se por cima dela e tapando sua boca gritou: - Estás louca?! Cala essa boca! Que merda é essa?! Aquilo tudo tão era desconfortável como ficar nu em público. De nada adiantou, pois ela revolvia a cabeça como se estivesse num transe diabólico e não parava de emitir sons incompreensíveis. Vencido fisicamente ele sentou de lado, recostou-se na parede da sala e exaurido, sem forças para ir embora parou e tentou decifrar a cena. Aqueles gritos o fizeram ficar por um não sei quê de tentar compreender o que se passava na cabeça daquela desconhecida. Ali, bem próximo ao dele, aquele corpo retorcia-se ferozmente e apesar da confusão de sensações ele regozijava-se em silêncio de poder observar numa cadência disforme aquele belo par de seios em diversos e inusitados ângulos. Aquilo o hipnotizou e o fez espectador imóvel. Por vezes ela erguia braços e pernas num frenesi desengonçado de marionete e virando-se num repente brusco elevou a bunda como se quisesse com ela fazer desenhos no teto. Súbito parou de gritar e de se mover. Assim mesmo, sem nenhuma lógica humana. Levantou-se e foi até o banheiro numa cadência de exibição suave. Aturdido, ouvindo o som do chuveiro deitou-se ele também no tapete e entregou-se de vez, sem restrições, aquele acaso insano. Na penumbra imaginou-se vítima de feitiçaria. Quis vingar-se. Idiotamente começou a berrar. De pé na porta da sala, completamente nua, ela o observava e torcia-se de gargalhar. Não agüentando sequer o tempo necessário de acordar o resto da vizinhança, que estranhamente não se manifestara em nenhum momento para protestar o barulho, calou. Ela aproximou-se dele como uma ninfa em sonho etéreo e tal qual gueixa apaixonada sussurrou doce ao seu ouvido: - Agora vamos fazer sexo. E fizeram.
20/05/2007
O Prozac, o mar e a liberdade.
Anos rodopiando em volta de si mesma e nunca se enroscava porque não achava o nó. Queria o tombo grande e risível que a faria cair no seu centro fundante. Fazia isso desde sempre. Estava cansada de tudo. E de si mesma, farta. Ter vida simples não era tão simples assim. Queria comer o mundo e explodir em tons de cinza nos dias de profundo tédio. Família, normal. Trabalho, tranqüilo. Era uma doida, pensou. Só podia ser uma loucura que se aproximava devagar e certamente aos cinqüenta a meteriam num sanatório pago pelo estado. Usaria fraldas geriátricas, seria maltratada pelas enfermeiras e se apaixonaria pelo médico recém formado. Mais uma velha ridícula a inspirar piadas de sogras. Drogas? Qual delas? Não surtiam mais o efeito desejado. Então como fazer para diminuir a insatisfação sem nome? Prozac era pouco e pouco era o que ela não queria. Pegou algo pesado. Bem pesado. Depois, sozinha, foi para o mar contemplar as ondas que ajudavam o dia amanhecer. Apesar do desejo de estar só, já se encontravam por lá alguns desportistas de ocasião. Caminhada faz bem para o corpo, pensou, para em seguida decidir - Mas o que vou fazer mesmo é ficar sentada olhando essas ondas e curtindo o efeito da sensação imbecil de liberdade que o mar sempre nos traz. Liberdade era uma palavra tão corrompida que a fez gritar: - Eu odeio a liberdadeeeeeeeeeeee. Porque ela é como eu: não existe. Melhor ir embora, pois a vergonha de si mesma estava voltando bruscamente junto com o retorno da lucidez e isso lhe era insuportável de sentir estando sentada. Por isso precisava estar sempre em movimento. Voltou a pé para casa e no trajeto desejou imensamente ter uma obsessão, qualquer uma.
10/05/2007
Tia Socorro da escola municipal
Estranhava o próprio corpo quando olhava para trás. Sempre imaginou cenas de cinema onde pudesse ver o envelhecimento de suas células em intensa velocidade de forma que passados sessenta minutos viria todas as transformações de seu corpo, do nascimento ao presente. Talvez fosse o delírio da embriaguez do dia anterior que lhe relembrou tal pensamento. Se tivesse sido cineasta filmaria. Escolheria diversos corpos e tal como os cientistas americanos, após anos de intensa espera, exibiria ao mundo o envelhecer de gente de diversas origens, de diversos cantos do mundo. Não era cineasta. Era professora. Professora do ensino fundamental em escola do município. E entediava-se facilmente a cada dia. Apesar disso, apegava-se a alguns alunos a cada ano. Não tivera filhos mas seu lado maternal era tão natural quanto seus cabelos quase loiros e olhos verdes de difícil encontro nessas paragens. Chamavam-na de tia na escola. Era a tia loirinha, como disse certa vez Davi, seu pupilo mais querido do ano corrente. O mais querido e o mais inquieto dos alunos. Ela se irritava e se encantava com sua desobediência. No fundo tinha inveja dele. Quisera também, ela, ter sido e permanecido assim: desobediente e inquieta. Não fora. Era boazinha. Era a tia boazinha, a filha boazinha, a neta boazinha da vovó Helena, loira como ela e bisneta de portugueses. Até conhecer Nádia, tia Socorro era assim e exatamente assim: boazinha. Nádia era a nova funcionária da secretaria da escola. Nádia era diferente – pensava ela. Estava sempre vestida de cores vibrantes e olhava nos olhos, assim, direto. Como coisa que não se explica a empatia se deu e Nádia tomou de tal modo conta da vida de Socorro, que o álcool agora era uma constante nos fins de semana. Liberou-se a Socorro. Estava até transando sem amor! Onde já se viu!? Tia Socorro, que antes da escola municipal era tia de catecismos para a primeira comunhão. Quando Nádia foi demitida Tia Socorro esqueceu todos os ensinamentos da escola de freiras só para meninas onde estudou durante anos até a adolescência. Socorro agora tinha até algumas amigas travestis e mudara completamente seu modo de vestir-se. Virou habituée de boite gay e todas as vodcas da noite não lhe bastavam. Forjou licença saúde, meteu o papel na secretaria de educação do município e há meses, graças a Nádia, estava nessa de curtir a vida. Perdera o sorriso cúmplice das mães de ex-alunos. Ganhara estrondosas gargalhadas madrugadas adentro. Socorro um dia, depois de virar a noite vinda da inauguração do novo bordel onde estava trabalhando Nádia, gritou na sala da diretora da escola às sete e trinta da manhã: - “Tia Socorro é a puta que te pariu, sua rapariga”! Virou-se e foi embora para sempre, mas antes viu agarrar-se em suas pernas o menino Davi. Ela agora não tinha mais a imbecil inveja daquela vidinha inquieta de sete anos de idade e o beijou como nunca antes dizendo: - “Não permita nunca que te chamem de bonzinho”. O menino fez cara de interrogação e riu muito dizendo – “A minha Tia Socorro tá bêbada”. Ela riu junto e foi embora. Precisava dormir e curar-se da ressaca, pois hoje iria declarar finalmente seu amor por Nádia.
29/04/2007
A brasilidade Caê, quem vai querer?!
Vamos sim, comer Caetano.
Sua magreza ágil
Seus cabelos brancos
Seu sorriso largo
Suas pernas finas
Sua língua solta
Sua pan-sexualidade musical
Seus experimentos sonoros
Seus rocks, seus sambas
Suas palavras geniais
Seu romantismo tropical
Sua Paulinha sem graça
Seu despojamento
Sua meninice
Sua velhice
Sua falta de caretice
Sua caetanice
Vamos sim, comer Caetano Veloso.
Sem palitar os dentes
Sem nos preocupar se estamos sendo indecentes
O que importa é a ginga, de sua mão na cintura
O que importa é a rima, da pós-modernidade caetana
A brasilidade Caê, quem vai querer?!
“Vamo cumê, vamo cumê Caetano”.*
* Uma homenagem ao show de Caetano Veloso em Fortaleza (28/04) para aqueles que estiveram no inesquecível show Circuladô, no Parque do Cocó, há 15 anos atrás. Ontem, lavamos a "burra" e a alma!
Sua magreza ágil
Seus cabelos brancos
Seu sorriso largo
Suas pernas finas
Sua língua solta
Sua pan-sexualidade musical
Seus experimentos sonoros
Seus rocks, seus sambas
Suas palavras geniais
Seu romantismo tropical
Sua Paulinha sem graça
Seu despojamento
Sua meninice
Sua velhice
Sua falta de caretice
Sua caetanice
Vamos sim, comer Caetano Veloso.
Sem palitar os dentes
Sem nos preocupar se estamos sendo indecentes
O que importa é a ginga, de sua mão na cintura
O que importa é a rima, da pós-modernidade caetana
A brasilidade Caê, quem vai querer?!
“Vamo cumê, vamo cumê Caetano”.*
* Uma homenagem ao show de Caetano Veloso em Fortaleza (28/04) para aqueles que estiveram no inesquecível show Circuladô, no Parque do Cocó, há 15 anos atrás. Ontem, lavamos a "burra" e a alma!
22/04/2007
Fake love.
Na memória da pele só aquele corpo suave e moreno, que chegando de mansinho fazia chover na cama gemidos de intenso prazer. Acuda-me o Tempo e faça desse momento um breve intervalo de noites insones. Darei giros por essa cidade praiana e vou parar na Praça do Ferreira à meia noite em frente ao Cine São Luis. Vou fixar meu olhar na Coluna da Hora e pensar em coisas práticas para desfazer-me de um nós que já não existe mais. No calçadão da Avenida Beira Mar contarei todos os passos do trajeto para desviar a atenção do meu coração pensante. Provocarei conversas com desconhecidos e a eles pedirei conselhos de bom viver. Cicatrizaria a ferida profunda quando saltasse no vazio de não mais lembrar? Ansiedade: matéria prima do falso amor.
15/04/2007
Os anos de telenovela haveriam de servir para algo.
Fim. Foi do que falou. Sem volta. Sem pressa. Só certeza. Ficou cinza. Perdeu seu arco-íris. Estava lá. Chegara. Foi de madrugada que descobriu, logo depois de um sonho. Tola. Assim se sentiu. O que dizer? Como dizer? Os filhos ainda dormiam. Deus, como os amava, pensou. Foi até o espelho do banheiro. Pé ante pé para não despertar a família. A sua família. Estranho. Por um momento se sentiu tão longe de todos. O espelho do armário refletia apenas seus anos de mulher casada. Não via nele seu ventre crescido, mas era como se o encarasse pela primeira vez de forma intensa e aguda. Tinha cinqüenta e dois anos, casara aos vinte e oito. Achou-se terrivelmente feia. Isso era grave, embora se soubesse feia há alguns anos, essa certeza, hoje, doía mais que antes. Antes quando? Quando exatamente se descobriu assim? Não lembrava. Talvez depois do segundo filho, hoje com doze anos. Num gesto mecânico saiu do espelho e sentou-se no sanitário para mijar. Foi quando lembrou do sonho com riqueza de detalhes. Antes não tivesse lembrado. Maldita memória. A cabeça entre as mãos pesou de repente mais que ela mesma. Quis vomitar-se. Fugindo de si mesma e sem usar o papel higiênico correu até a cama. Tropeçou próximo a cama. O marido acordou. Sua cara de espanto lhe causou um desprezo irremediável. Era dela o problema se havia tropeçado. Tropeçara e pronto! Que importava se era madrugada! Que importava se as crianças dormiam! Aliás, de hoje em diante eram dela todos os problemas que viessem a acontecer. Queria-se só. Uma mulher só. Com o ventre crescido, dona-de-casa, feia, cinqüenta e dois anos, quatro filhos e só. E pronto. O resto era com ela. Os anos de telenovela haveriam de servir para algo. Iria se inspirar e teria seu final próprio feliz. No fundo, sempre duvidava dos finais felizes, embora sempre nervosa torcesse por eles e assistisse as reprises no sábado apenas para ter a certeza triunfal de não haver perdido nenhum detalhe entre suas idas e vindas na cozinha sem microondas. Desta vez não poderia haver dúvidas, pois não haveria reprises. Era sua vida em suas mãos gordurosas de mulher separada. Após o espanto do marido naquela madrugada ela sussurrou - Sou só. Essa certeza não lhe permitiria gritar e assim acordar as crianças. Sem pressa. Sem volta. Foi do que falou. Fim.
Dias inglórios!
Dias de macarrão instantâneo.
Cheiro de ônibus lotado ao meio-dia.
Sabor de salário atrasado.
Dor-de-barriga de contas não pagas.
Humor de aniversário sem presentes.
Mau hálito de mentiras desnecessárias.
Impotência de doença terminal.
Gargalhadas de álcool.
Ímpeto de bares fechando.
Queimadura de desencontros.
Fumaça de desentendimento banal.
Tontura de querer alcançar o inalcançável.
Choro de final infeliz.
Esquecimento.
Viva o esquecimento!
10/04/2007
Procura-se: "Alma Afoita".
Ela resolveu sair por aí. Não chovia, fazia até bom tempo e nada de extraordinário existia naquele dia. - Volta aqui! Berrou antes que ela se fosse. E foi. Mas antes o olhou de soslaio, piscou e riu. Riu não. Gargalhou. Tudo às suas custas. Aquela “Alma Afoita” sem nenhum motivo aparente ia embora e dessa vez era de vez. Bastava! Cansou de esperar pela cura. Iria ela mesma reinventar um extra cotidiano radical, sem precedentes. Desde então o moço espalhou cartazes por todo o mundo onde se lia: - Procura-se alma rebelada de um rapaz de vinte e oito anos, estatura mediana, oferece-se recompensa em euros, valor a combinar. Espalhou, sobretudo nos aeroportos, pois ela havia dito que iria para longe. Não adiantou. Os cartazes amarelados ainda estão por lá. Silêncio. Ele espera. Cabelos brancos. Sentado. Até o fim.
09/04/2007
Menos: - Não!
É de intensidades que falo...
É de extremos que trato...
É dos limites que vou à caça...
É da ausência de medos que necessito...
É do imprevisto que traço as regras...
É das montanhas do acaso que anseia meu respirar...
É do horror e espanto que procuro não me livrar...
É do absurdo do senso comum que não sou feita...
É do cúmulo das mercadorias que me cercam que entonteço...
É da cumplicidade de amigos que sinto saudades diárias...
É do inteiro que me sacio...
É da ausência de sangue quente que fujo...
É de extremos que trato...
É dos limites que vou à caça...
É da ausência de medos que necessito...
É do imprevisto que traço as regras...
É das montanhas do acaso que anseia meu respirar...
É do horror e espanto que procuro não me livrar...
É do absurdo do senso comum que não sou feita...
É do cúmulo das mercadorias que me cercam que entonteço...
É da cumplicidade de amigos que sinto saudades diárias...
É do inteiro que me sacio...
É da ausência de sangue quente que fujo...
Então, não me venha com seu menos.
04/04/2007
E a Puta, apaixonada, disse: teu endereço sou eu.
Fiz-me rua para suas andanças desde cedo. Encontravam-me sempre por acasos de destinos desatinados. Jorravam em mim seus líquidos de um dourado quente nos momentos de aperto. Vomitaram-me tantas vezes suas ausências de vida. Da lama, os recolhi outras tantas. Quando saciados tomavam atalhos para me desviar. Fiz-me sinuosa, ajardinada e estreita para subir seu prazer. Das famílias nunca sentiam saudades em minha companhia. Em altas horas da noite, quando o prazer é mais seguro aos olhos do interdito, vinham a mim todos os insaciados. Dormiam sono leve as esposas. Delas jamais quis arrancar-lhes os nomes: Terezas, Marianas, Cláudias, Samaras, Raquéis, Paulas, Marias, Elianas, Rosanas, Elenis, Valdelices, Silvias, tantas, não importava. A elas sempre dediquei firme indiferença. Eram mulheres, e esposas, e namoradas, e mães e amavam ou não mais. De inesperada esquina veio você, atropelando-me tal qual passeata juvenil, fuga de assalto a banco, carreira de cachorro vira-lata, pressa de gravidez desfeita. Vem. Invade-me as coxias. Alaga-me de madrugada uma torrencial chuva de pele. Varre-me a memória dos outros. De todos. Passeia-me de mãos dadas e exibicionistas. Topa-me nas calçadas e cai de corpo inteiro em meu acalanto. É a ti minha procissão. Interdita-me a saudade do teu caminhar para longe de mim. Meus bueiros te gritam em uníssono: teu endereço sou eu.
01/04/2007
Aos soldados mortos: o amor.
Desde adulto sei que é proibido aos amantes o momento agudo e abissal da tristeza amorosa sob pena de classificação doentia.
Adoeço e não me interessa o diagnóstico.
Adoeço e não me interessa a compaixão.
Adoeço e não me interessa a cura.
Adoeço e brado aos soldados mortos que o amor negligencia guerras e isso o torna perigoso. É tão somente a eles que declaro meu amor, aos vivos não, pois que ainda lhes é dada a chance do ridículo:
Meu amor pula as muralhas de todas as chinas.
Meu amor é frágil como um passarinho órfão recém-nascido em plena chuva.
Meu amor envelhece sorrindo e chupando sorvete.
Meu amor rasga o silêncio da timidez e declara sua necessidade na sarjeta sem nenhum pudor.
Meu amor está pronto para ser apedrejado.
Meu amor desafia orientações sexuais.
Meu amor é ingênuo como uma criança.
Meu amor é intenso como um crime.
Meu amor não obedece ao correr das horas.
Meu amor trai as convenções.
Meu amor sacraliza o momento do coito.
Meu amor desconhece a modéstia.
Meu amor atravessa descalço desertos insones.
Meu amor desconhece estado civil.
Meu amor canta sua existência sob tortura.
Meu amor trapaceia para se manter vivo.
Meu amor resiste aos nãos.
Meu amor insiste em sims.
Meu amor é seu, ainda que não seja você o meu Amor, tão meu...
Adoeço e não me interessa o diagnóstico.
Adoeço e não me interessa a compaixão.
Adoeço e não me interessa a cura.
Adoeço e brado aos soldados mortos que o amor negligencia guerras e isso o torna perigoso. É tão somente a eles que declaro meu amor, aos vivos não, pois que ainda lhes é dada a chance do ridículo:
Meu amor pula as muralhas de todas as chinas.
Meu amor é frágil como um passarinho órfão recém-nascido em plena chuva.
Meu amor envelhece sorrindo e chupando sorvete.
Meu amor rasga o silêncio da timidez e declara sua necessidade na sarjeta sem nenhum pudor.
Meu amor está pronto para ser apedrejado.
Meu amor desafia orientações sexuais.
Meu amor é ingênuo como uma criança.
Meu amor é intenso como um crime.
Meu amor não obedece ao correr das horas.
Meu amor trai as convenções.
Meu amor sacraliza o momento do coito.
Meu amor desconhece a modéstia.
Meu amor atravessa descalço desertos insones.
Meu amor desconhece estado civil.
Meu amor canta sua existência sob tortura.
Meu amor trapaceia para se manter vivo.
Meu amor resiste aos nãos.
Meu amor insiste em sims.
Meu amor é seu, ainda que não seja você o meu Amor, tão meu...
28/03/2007
Meu professor me matou.
Fui ameaçado de morte por um professor. Não dei importância. Pensei que se tratasse de blefe, desequilíbrio de alma inútil. Mas não, ele percebeu, não sei como. Talvez no meu olhar que fitava inocente sua mediocridade há algumas horas-aula. Meu corpo naquela sala era mais um, pensava eu. Nunca fiz questão de exibir discordâncias. Além do mais, eu o achava até esforçado na sua pequenez d’alma. Ele sempre se apresentava muito distinto no vestir, camisa escondendo os pulsos e sua sexualidade inexistente. Era pai de família, filho de pais infelizes e fez doutorado a duras penas, sem bolsa. E porque eu? Logo eu? Disfarçava-me de gente comum pra não dar na vista. Protegia-me. Como diabo ele soube onde estavam guardados meus pensamentos? Trazia-os comigo em pasta comum, daquelas de promoção, e jamais me afastava dela por muito tempo. Mas um dia, um dia qualquer, deixo a pasta na carteira e saio para mijar antes do início da aula. Quando retorno, o vejo lendo, ele leu tudo. Não titubeou, o revólver já estava lá, sob a camisa passada. Atirou. Acertou-me em cheio.
Foda-se! - era a verbo.
Enfurecida, entrei em casa rasgando todos os laços, arrancando raízes, sublimando desejos, atenuando culpas, cegando a memória. Nada deveria ficar intacto até que meu sangue parasse de ferver. E você era o alvo. Atirei nas sombras das lembranças para implodir tudo o que explodia meu peito no devagar dos dias. Foda-se! - era a verbo. Cale-se! - era a ordem. Nunca mais! - era tudo o que deveria acontecer. Minha paz de volta - era o meu objetivo. Pus-me sombria até conseguir a certeza insana da vontade de desaparecer pra longe de ti. Os presentes não quebrei, nem destruí – vendi, para ofender-te no teu modus vivendi e te relevar o meu avesso. As idas e vindas dos nós na garganta enfim se desfaziam. Fiz esforço para pensar contra meu corpo e deixá-lo fora daquela história toda. O dia era aquele. Toca a campainha, entra você e um amigo imbecil. Meu Deus, porque nunca o chamei de imbecil?! Porque nunca revelei assim, de pronto, como uma criança ou um louco, que eu o achava um completo imbecil. Fui até a porta. Abri. – Entrem. Sorri cínica. E completei - um imbecil e um ex-marido juntos! O tempo parou de respirar e dois sorrisos constrangidos preencheram a sala. O cheiro da traição empestou o ar e exalava de seu sorriso. O amigo imbecil era o álibi. Fim.
Desfiei todo o rosário dos desesperados: consultei mapa astral, amigos pra conversar, insônia, ginástica pra auto-estima, bares, álcool, muito álcool, alma corroída, perna desobediente, olhos vermelhos, choro sem fim, emagreci, me culpei, te maldisse.
E hoje, depois de tanto tempo, eu e você aqui nesse motel, me desconforto e te pergunto: - Como vai sua vida? E enquanto conversamos me digo em silêncio: - Caralho, acabou mesmo! Felicito-me.
Desfiei todo o rosário dos desesperados: consultei mapa astral, amigos pra conversar, insônia, ginástica pra auto-estima, bares, álcool, muito álcool, alma corroída, perna desobediente, olhos vermelhos, choro sem fim, emagreci, me culpei, te maldisse.
E hoje, depois de tanto tempo, eu e você aqui nesse motel, me desconforto e te pergunto: - Como vai sua vida? E enquanto conversamos me digo em silêncio: - Caralho, acabou mesmo! Felicito-me.
25/03/2007
Domingo... banal...
Aquieto-me como o domingo que finda. Daqui posso ver o mar e agora ouço também o sino da Igreja do Carmo anunciando o silêncio do centro de Fortaleza. O agora é quando? Não... não estou melancólica. Apenas sinto um estranho chamado da escrita para traduzir esse momento banal. Já que não é eficaz minha corrida contra o tempo para sentir no correr das horas a repetição do sabor efêmero do momentos de intensidade, então, escrevo. Presentifico o banal, o corriqueiro, o domingueiro. Isso beira ao tédio? Não. É quase bela a solidão do momento banal. Olho em volta e fixo-me nas cores. Quem precisa delas? Estão por toda parte. Para que servem num momento como esse? E eu, para que sirvo? Aos outros? Poucos. Sinto-me também banal. Somos todos? Esse fascínio pelo Tempo não me larga. Mas é melhor acordar meu corpo antes de submergir no banal. Ele se movimenta e me movimenta. Ajuda-me na fuga do agora. Vou suar. Vou sentir.
A ENCOMENDA
Ontem vieram me entregar um corpo, ele vinha em uma caixa comum e já não cheirava bem. No dia em que me mataram achava que era imortal e me vendo ali, em pedaços disformes, deduzi que não. Peguei a caixa e fui enterrá-la no quintal da minha alma, no lugar mais escondido dos olhares da memória. Tive medo que viesse à tona a mesma ânsia de vômito que tive no instante em que me entregaram a caixa. Então, cavei mais fundo, e mais fundo e mais fundo. Não queria estragar com o amargo da morte os próximos beijos de um novo e pleno amor.
Depois que me entregou a caixa virou de costas o entregador. Não tive tempo de agradecê-lo minha morte. Queria dizê-lo que ele me fez enfrentar meu diabo e do quanto eu precisava disso pra entender que não era feliz. Depois que morri ainda pude ouvir ao longe o estalar dos beijos, não aquele que me foi mortal, mas os outros, aqueles que um dia me fizeram crer que eu era imortal, uma amada imortal. Hoje tento ser amante de mim mesma, tornando-me melhor e mais bela pra vida, minha vida. A caixa vai permanecer no meu abismo que não deixo ninguém ver, porque é escuro e triste. E eu vou estar olhando para o céu, aguardando tempos melhores e beijos imortais. Beijos de amantes que não me matem. E por isso hoje ressuscito de ti, mais plena, melhor. Obrigada por ter me matado, me fez ver que minhas mãos sempre estiveram vazias a espera da caixa. Finalmente chegou.
Depois que me entregou a caixa virou de costas o entregador. Não tive tempo de agradecê-lo minha morte. Queria dizê-lo que ele me fez enfrentar meu diabo e do quanto eu precisava disso pra entender que não era feliz. Depois que morri ainda pude ouvir ao longe o estalar dos beijos, não aquele que me foi mortal, mas os outros, aqueles que um dia me fizeram crer que eu era imortal, uma amada imortal. Hoje tento ser amante de mim mesma, tornando-me melhor e mais bela pra vida, minha vida. A caixa vai permanecer no meu abismo que não deixo ninguém ver, porque é escuro e triste. E eu vou estar olhando para o céu, aguardando tempos melhores e beijos imortais. Beijos de amantes que não me matem. E por isso hoje ressuscito de ti, mais plena, melhor. Obrigada por ter me matado, me fez ver que minhas mãos sempre estiveram vazias a espera da caixa. Finalmente chegou.
21/03/2007
Laçinhos cor-de-rosa, pra você amor!
A morte tem sido minha obsessão há algum tempo, e você sabe disso, embora não tenha tendências suicidas. Não se trata de medo da morte e sim de medo do fim da vida antes que ela se mostre em todas as suas virtudes. Já discutimos tanto isso. Você se zanga. Não quer falar. Sua ingenuidade me comove. Seus rituais religiosos também. Mas isso não afasta a força do acaso. Os anos que virão me amedrontam, pois tenho medo de não me tornar um Eu Pleno nesse tempo que me resta. E você, não quer falar. Nunca quer falar. Mas amanhã, quando você chegar do trabalho vai ver que espalhei laçinhos cor-de-rosa na casa por toda parte, pra te mostrar que a ficção pode invadir nossa realidade e nos fazer duvidar dessa realidade que não passa de ficção diante da morte. Então que tal você também colocar laçinhos cor-de-rosa no meu caixão?! Se eu morrer primeiro, é claro. Aí verá que até a dor pode ser invadida pela ficção. Imagine você que não há nada de mais inusitado que um caixão repleto de laçinhos cor-de-rosa ladeando o corpo. É engraçado. Você costumava não me levar a sério só porque eu ria demais, ria de tudo e, sobretudo ria da morte. Ainda rio, e muito. Nada mais patético que esse negócio de morrer. Nada mais mágico que esse negócio de viver. Então decidi hoje que no seu próximo aniversário vou te presentear com uma foto minha onde eu estarei com um enorme laço cor-de-rosa na cabeça. Será um belo laço de cetim, só pra eu te ver rindo outra vez e sempre. Faz tempo que não te vejo assim. E me odiando de mentirinha por eu amar o ridículo, o patético, o que não combina. Não gosto da cor rosa que você adora, mas por amor, meu amor, até mando pintar meu fusca de cor-de-rosa só para te agradar e te amar ainda mais por te ver gargalhando. Rindo do meu jeito de querer te agradar. Decidi agora que vou te dar hoje essa carta que era só pra semana que vem. E devo terminá-la logo porque daqui vou direto pra oficina pintar meu carro. Assim ele vai combinar com esse papel cor-de-rosa que vou te entregar depois que você ouvir a buzina do meu fusca cor-de-rosa. Desce amor e vem receber minha carta de amor agora. Estou te escrevendo do meu fusca, de frente da tua casa. Não posso esperar mais pelo teu sorriso, desce e vem receber tua carta e meus beijos, também cor-de-rosa. E se assim você quiser, amor, iremos agora, juntos, pintar meu o fusca, porque tudo isso é o contrário de morrer. Desce. Bi bi Bi bi Bi biiiiiiiiiiiiiii............
16/03/2007
Rumo ao reencantamento do mundo... ao Dragão. Vamos?
Amolo minha faca para cortar a indescritível dormência da pós-modernidade. Haja facão! Tento fazer fronteira com o reencantamento do mundo, mas a cerca das notícias não me deixa. Sabe-se lá o que se passa para além das notícias. A vida? Vibra muito tudo o que não sai na televisão. Aceleramos rumo ao coletivo que já não é mais político sem deixar de sê-lo.
E enfim, quando chega a sexta-feira vamos todos ao centro do dragão, mas não é no centro que ficamos, pois o que vibra é seu entorno. O de dentro é apenas passarela fria que leva rumo aos encontros. É em busca deles que vamos. É em busca daqueles a nós destinados que vamos. Ainda que por uma noite, teremos, seremos, celebraremos. Nos encontraremos ou não. Antes disso, no comesinho dos dias, alimentamos nossa alma e vaidade de expectativas vãs. Cabelos e barriga em ordem ou não. Lá vamos nós desafiando os magazines e as beldades desejantes. As afrontamos com nossos corpos reais, mas nem por isso deixamos de consumi-las em silêncio. O que diriam em uníssono nosso inconsciente coletivo diante das bancas de revistas? Melhor calar para não gritar o desejo da beleza photoshop. E o corpo feminino, que tudo vende, segue vendendo também angústias veladas e ansiedades disfarçadas que são distribuídas como brindes dos demais artefatos. Tantos. São tantos os artefatos como os fatos da vida. Vida dentro do artefato até o talo, até o caroço, até o pescoço. Vida afogada em mercadorias-alegorias. Fundo, tão fundo que já não se ouvem o gritos. Ouve-se apenas os murmúrios vindos dos consultórios pré-à-porter que não param de simular a cura para o incurável.
E enfim, quando chega a sexta-feira vamos todos ao centro do dragão, mas não é no centro que ficamos, pois o que vibra é seu entorno. O de dentro é apenas passarela fria que leva rumo aos encontros. É em busca deles que vamos. É em busca daqueles a nós destinados que vamos. Ainda que por uma noite, teremos, seremos, celebraremos. Nos encontraremos ou não. Antes disso, no comesinho dos dias, alimentamos nossa alma e vaidade de expectativas vãs. Cabelos e barriga em ordem ou não. Lá vamos nós desafiando os magazines e as beldades desejantes. As afrontamos com nossos corpos reais, mas nem por isso deixamos de consumi-las em silêncio. O que diriam em uníssono nosso inconsciente coletivo diante das bancas de revistas? Melhor calar para não gritar o desejo da beleza photoshop. E o corpo feminino, que tudo vende, segue vendendo também angústias veladas e ansiedades disfarçadas que são distribuídas como brindes dos demais artefatos. Tantos. São tantos os artefatos como os fatos da vida. Vida dentro do artefato até o talo, até o caroço, até o pescoço. Vida afogada em mercadorias-alegorias. Fundo, tão fundo que já não se ouvem o gritos. Ouve-se apenas os murmúrios vindos dos consultórios pré-à-porter que não param de simular a cura para o incurável.
Ainda assim vamos em busca do mundo reencantado. Vamos?
Na casa dos jogos infantis rodopiava, hoje não encontro morada. É madrugada e chove na cidade de Fortaleza. Sinto cheiro de milagre. Como é possível que todos, absolutamente todos, não se entreguem ao delicioso banho que vem do céu? Não, todos não, mas talvez alguns olhos miúdos ainda se arrisquem ao riso frouxo em algum canto dessas paragens, longe ou perto dos olhares maternos.
08/03/2007
No Dia Internacional da Mulher, ouviu tiros!
O corpo feminino ainda vai reagir a toda essa opressão das roupas e enfim liderar uma revolução corpénica – coppola – corpuda – corporal – corpulenta – corpazil. Que corpinho! Detinha-se em um belo par de peitos. Adorava o corpo feminino apesar das imagens ainda marcantes de uma adolescência plena de homoerotismo. Era assim que pensava, em voz alta, enquanto folheava algumas revistas ditas masculinas. Sua perspicácia não ia além do óbvio. Estava à toa. Acabara de chegar em casa e jantar. O trabalho hoje até que não foi dos piores dias. Porque revistas masculinas se na verdade estão cheias de mulheres nuas? Cismou. Essas é que deveriam ser chamadas de revistas femininas, ou melhor, pornô-femininas. As feministas que se fudessem, mas mulher nua era fundamental para todos, para tudo. Inclusive para elas próprias. Lembrou da sua ex e mais marcante namorada que lhe dera um fora pelo seu primo idiota. Idiota e funcionário público com estabilidade, coisa que ele não era. No fim das contas deu razão a ela. Ele também perseguia a estabilidade nos jornais de concursos públicos. De repente ouviu tiros! Vinham da casa dela. Do apartamento ao lado de sua vizinha linda e loura que era oxigenada e sempre com chapinha, mas sexy, muito sexy. Abriu a porta do apartamento num pulo e foi até lá. Ela estava com um vestido de cetim vermelho. Vestido ridículo. Vestido rasgado e com cara de alugado para baile de formatura. O cabelo recém saído de mais uma chapinha pingava sangue combinando com o vestido - reparou. Puta merda! Que porra tinha acontecido naquele apartamento e porque ele, justamente ele, tinha de ser a testemunha escolhida daquela cena de folhetim? Deus não é justo – pensou. A loura tremia e o nome dela não lhe vinha à cabeça nem a pau. Revólver em punho ela olhava pra ele com espanto e horror com se fora ele o assassinado. O morto estava ali bem aos seus pés e ele pateticamente sem conseguir pronunciar nada. Seu gesto foi o mais imbecil e insensato possível. Coisas que um homem só faz por uma mulher. Que mulher! Foi até ela e tomou-lhe da mão o revólver. Abraçou-a. Pela primeira vez, abraçava-a. E o revólver encostado à cintura da loura estava sobrando naquele abraço. A única coisa que lhe veio à mente foi: Feliz dia internacional da mulher! Dito de forma tímida e ao pé do seu ouvido. É que além de gostar de louras ele era fã das vilãs de revista em quadrinho.
Psiu! Silêncio!
É necessário fazer silêncio de si mesmo para permitir vez ao espanto. Insistem em bailar inúmeros pensamentos não-convidados e ainda assim não desconsertam o tempo presente. Fico cismando que essa tal de vida me prometeu plenitude de gente, gestos e gozos. Esse negócio de carpe diem está difícil de cumprir. Hoje vi na parada de ônibus borboletas azuis brilhantes aos milhares. Sem darem-se conta de que estávamos todos ali, foram-se como vieram após desnortear por instantes um cotidiano em inevitável declínio de almas. O trânsito indiferente seguiu seu curso e redistribuiu todos aqueles que não podiam se atrasar. O céu em seguida tornou-se marrom. O vazio do dia era tamanho que ninguém reparou nas borboletas e no marrom do céu. Apenas o menino recuperado da cola ao final da tarde, ria-se em cima da marquise. Riso rasgado, ignorante e fétido. Apenas ele olhava para o céu àquela hora. Iniciava o barulho das portas de comércio descendo. Tudo era pleno do mesmo que o centro comercial das grandes cidades produz. Gente aos milhares que jamais imaginavam sua chegada. Ela chegou, a grande onda chegou. Sem anúncio prévio na TV ela atrasou aqueles que nunca se atrasavam. Ela silenciou quase todos após seus gritos do mais puro espanto. Calaram-se puros e impuros. E então, fez-se finalmente o magnífico silêncio. Milhares de minutos de silêncio denso e pleno.
07/03/2007
Você... ainda bem...
Desequilíbrio existencial.
Ainda bem que não é diário.
Memórias cortantes.
Ainda bem que existe o esquecimento.
Timidez intransponível.
Ainda bem que existe o álcool.
Delírios profundos.
Ainda bem que o corpo fala.
Abismos repentinos.
Ainda bem que existe sorte.
Solidão discreta.
Ainda bem que existem praças.
Desespero real.
Ainda bem que existe família.
Sofrimento passional.
Ainda bem que existem amigos.
Dias de trabalhos inúteis.
Ainda bem que existe dinheiro.
O mundo ao contrário.
Ainda bem que existe você.
05/03/2007
DESEJO DE INFINITO...
Deixou a porta do quarto entreaberta para que entrasse apenas um bocado do infinito. Vingava-se assim de toda a ansiedade contida e dificilmente disfarçada que lhe perseguia desde os sonhos juvenis. Estava febril e mal podia levantar-se para beber água. Tropeçou em si, quase caiu. Não caiu por estar deitado e atropelado apenas por pensamentos. Olhou em volta mais uma vez, e outra, e mais outra, e não reconhecia aqueles objetos todos como seus. Eles estavam tão distantes. Pensou na morte. Como seria possível objetos sobreviverem a ele próprio? Era indecente. Aliviou-se dedicando então o olhar aos objetos mais queridos. Ainda assim, a indecência do fato permanecia. Afastou os pensamentos da morte. Pra que? Ela viria, ainda que impensada. Pegou um livro e notou que o sabor já não era o mesmo. Gosto amargo de uma literatura que nada lhe dizia. Ele precisava de algo mais denso, intenso, agudo, cortante. Certamente não era o caso daquele livro. Passou em ordem alfabética toda a sua biblioteca. Permanecia deitado, imóvel. Tocaram a campanhia. Foda-se, pensou. Iria sair daquela droga de cama para sua sempre adiada vida extraordinária. E ele sabia que aquela visita, aquela pessoa, que exatamente àquela hora sempre tocava a campanhia, não iria lhe levar sequer ao mínimo vestígio da vida invejável que ele sempre planejara. Mas e depois, como iria explicar-lhe o porquê não abrira a droga da porta? Foda-se o depois - pensou. Não podia mais adiar. Tinha que sair daquela cama direto para vida lá fora. Mas o máximo que conseguia era ir até o computador e dedilhar amostras grátis de um mundo que já não era o seu. Em qual momento trocara de mundo? Será que momentos depois de recebido o laudo médico? Como, de repente, poderia habitar um plano tão diferente dos outros? O que mais lhe doía era o indisfarçável olhar de piedade de todos, absolutamente todos eles. Não entendiam que aquela não era uma forma de amor? Os mais íntimos sequer sustentavam o olhar. Muitos se admiraram da transformação que lhe ocorrera tão repentinamente. De amável ele tornara-se alguém intolerável. E assim se comportava de forma consciente e calculada. Vinha se aprimorando dia-a-dia. Vez ou outra simulava ataques de dores imaginárias apenas para testar seu enfermeiro. Era sua forma de destruir toda a piedade que os outros lhe dedicaram quando souberam da notícia. E ele, longe de se constranger satisfazia-se com os poucos e masoquistas amigos. Mas aquela visita constante e rotineira que anunciava o som da campanhia lembrava-lhe que precisava se esmerar em suas táticas. Nem toda a maldade tecnicamente preparada fora capaz de atingir aquela pessoa, que sempre, todos os dias vinha visitar-lhe. O que fazer? Poderia fingir-se de morto. Riu-se, pois ainda não morrera e restava-lhe certo pudor ao imaginar os bombeiros arrombando-lhe a porta do apartamento e constatando que ele ainda estava ali, vivo. Ou então poderia matar-se de vez e assim aproximar seu fim anunciado. Com que finalidade divertia-se sendo uma pessoa má? A campanhia não parava de tocar. Resolveu abrir. – Bom dia mamãe! Disse em tom amável.
28/02/2007
E agora Fortaleza... para onde?
Em tempos idos nessa cidade, explodia-me em cores de Almodóvar. Hoje me salvo no final de semana da repetição. Sem pressa, sem culpa. Saboreio o virtual que promete e não cumpre. Folheio programações moribundas. Não alcanço o É das coisas. E mesmo sem Clarice, me sinto ir “como meu cachorro”. Sequer tenho vocação para cometer um crime. Queria nesse instante ser um crime, chocante e irresolúvel. Queria estampar as manchetes como quem estréia na roda-viva da vida e segue gargalhando à toa, como os legítimos brasileiros. Tudo isso para chamar a atenção da Prefeitura, dessa Prefeitura. Irrita-me e dói a esmola que nego por negar em vão a paisagem da cidade que me nega. Em Fortaleza, onde achar a cura para o tédio das ofertas de produção cultural? Nos cartazes vermelho e branco da Lôra que anunciam um devir que não se cumpre? Ou na promessa do “mesmo” que se inicia no CAMBEBA? Em Fortaleza onde cumprir a rotina do lúdico sem reclamar? Agarrar-se aos amigos já não basta para preencher a vontade de engolir com prazer essa cidade. Na praia dos turistas sexuais ainda nos salva o belo mar que, inocente, compõe a paisagem da especulação imobiliária. Especulemos, pois nós mesmos para onde nos levam as ondas vermelhas da política que nos acariciaram com seu véu de mudanças possíveis. O que, na área da cultura, ainda é possível ser feito pela terra de Iracema? Lembro-me agora de Adoniran Barbosa – “Iracema, você atravessou na contramão”. A mão da gestão cultural dessa cidade está dormente. De tanto não ousar segue sonolenta. Rumo a que? Rumo a unir-se à outra mão e num gesticular de militante permanecer dantescamente pedindo votos? Para que cara-pálida? Para quem?
27/02/2007
Quando a ciência chega tarde demais...
Ela tentava reinventar-se e ser outra no gerúndio do dia. Nunca conseguia. Nada adiantava. O bom senso das contas sempre vencia. A profunda invisibilidade do que era diante da história a consolava, mas apenas momentaneamente. Aconteceu, porém de seu corpo não se contentar com tamanho óbvio. Tinha de haver saída para ele e apenas para ele. Pressentindo que o pior já estava dado, revoltou-se e desobedecia aos pensamentos de vão contentamento da garota. Lubrificava-se num crescente de dias sem seu consentimento. A preguiça lhe vinha em horas mais impróprias do cumprimento do dever. Era, sobretudo contra o dever que ele, tomado pela revolta de não-ser agia. E eis que agora seu corpo era. E era das formas mais inconvenientes e constrangedoras. Aquele cara, aquele que jamais seria nada além de mais alguém, passara a ser alvo de insinuações pornográficas jamais pensadas por aquela garota. Seu corpo agora falava e sem sabê-lo ela seguia duvidando de alguma doença ou mal-estar passageiro. Como sua rotina continuasse a mesma, sequer lhe ocorreu que não dependia mais dela o pulsar do desejo. Daquele momento em diante ela seria vítima de seu próprio corpo que ao reinventar-se não se continha sequer diante da mais remota possibilidade de saciar-se. Nenhuma revista de folhetim conseguiria salvá-la. O que antes era fantasia agora se fazia ato sem pudor algum. E como afogado, ela seguia sem entender direito o que estava havendo. Tentou em vão comprimidos tarja preta e ainda assim nada continha o ímpeto daquele corpo insurgente. Pobre garota. Tempos depois ficou sabendo de alguma incompreensível explicação genética para seus atos lúbricos. Porém chegara tarde a ciência, pois eram incontáveis as brincadeiras experimentadas e ela não parava. Simplesmente não conseguia.
23/02/2007
FIZ CINZAS DE VOCÊ
Exatamente como um corpo atropelado deve desafogar o trânsito da cidade que nos atropela devo livrar-me de ti.
Exatamente como a ausência de dinheiro para ser feliz após um drink devo não mais te beber.
Exatamente como o desejo vão da mão que me acaricia devo decepá-la por ti.
Exatamente como a atenção daquele que não me conhece não te alcanço.
Exatamente como a fantasia que não usei te tornei minhas cinzas nesse carnaval.
Exatamente como a ausência de dinheiro para ser feliz após um drink devo não mais te beber.
Exatamente como o desejo vão da mão que me acaricia devo decepá-la por ti.
Exatamente como a atenção daquele que não me conhece não te alcanço.
Exatamente como a fantasia que não usei te tornei minhas cinzas nesse carnaval.
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