28/08/2007
Meu Corpo e a Chuva...
Alterei o agora da existência passiva e inerte de hábitos que não me largavam. Caminhava uma vez mais pelo mesmo lado da rua como fazia há tempos, então atravessei para o outro de forma a causar estranhamento em meu corpo já tão acostumado comigo indo e vindo dos mesmos lugares. Fixei o olhar com um interesse concentrado naquilo que nunca me interessou. Pus-me de cabeça para baixo a observar-te por ângulo oposto, e assim, talvez entender tua estranha falta de poesia diante da vida. Comi o que antes me enojava para me observar experimentando o novo. Corri dos espelhos diários refletidos pelas falas dos mesmos amigos. Busquei outros, para que novos olhares recaíssem sobre mim e desvendassem véus escondidos. Quando vesti o não-usual vi-me em um baile de máscaras sem música e cujos convidados estranhavam-me o caminhar. Estava na mesma cidade há anos. Já era tempo de colheita de um novo ser que confundisse aquele gerado desde o início de minha memória. Pus-me a pensar o contrário de mim para renovar-me os modos de ser e de estar no tempo. Inquietei-me de uma insônia profunda que sequer faziam arder meus olhos. Fui aonde jamais havia desejado estar. Provei do gosto ruim de corpos desconhecidos para aproximar-me do meu. Queria-me diferente em uma mesma casca. Rodiei-me de estranhamentos imperceptíveis aos olhos dos já conhecidos. Ninguém suspeitava que o corpo que compunha minha figura já não era meu, já não era eu. Reinventei laços afetivos passados que nunca estiveram presentes nas fotografias amareladas. Colori um futuro incerto com as cores de um outro-eu em gestação. Fui até o fim do desconhecido de mim e parei diante do espanto que me causou descobrir que tudo eram impressões ilusórias e que o corpo, o meu corpo, era prisioneiro de um-não-conseguir-ser-outro. E a cidade era a mesma. Voltei os olhos para o chão diante do horror experimentado e não mais os tirei. Até hoje caminho olhando os pés alheios. Quedo-me aí, espantada e inerte, sentido a brisa leve dos séculos me congelarem a espinha mortal. Solto beijos às múmias e abraço as inscrições rupestres numa profunda cumplicidade mundana e invejosa. Estiro-me ao sol e espero o absurdo da chuva que se ri do calor do meu desespero de carne. Foram-se as ingenuidades. O que virá depois?
19/08/2007
Festa de cores...
Foi para longe misturar cores que fizessem os minutos dançarem num domingo cinza. Cumpria atividades vãs quando um par de olhos o fez esquecer do cinza dos domingos. Pulou para dentro daquele corpo qual criança em parque de diversões e nele fez a festa. Depois de anos se virou para o lado e ficou ele também cinza e com saudades dos primeiros olhares. Arrastava-se pelos dias o cotidiano banal aumentando a ânsia de intensidade das horas. Decidiu caminhar para longe, longe, longe, até onde os músculos dissessem não. Assim despistava o desespero e uma quase excitação o cobria de esperanças inocentes. Era noite e o frio da cidade a beira mar tornava aquele momento agudamente poético e solitário. Deparou-se outra vez, como há muito não acontecia, com os pêlos em riste. Seu corpo tremia, mas o passo inseguro não o impediu de seguir em direção ao desejo. Recomeçava novamente a festa de cores. Fechou os olhos e uma vez mais mergulhou no corpo desconhecido que fez os minutos dançarem num domingo cinza.
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