15/04/2007
Os anos de telenovela haveriam de servir para algo.
Fim. Foi do que falou. Sem volta. Sem pressa. Só certeza. Ficou cinza. Perdeu seu arco-íris. Estava lá. Chegara. Foi de madrugada que descobriu, logo depois de um sonho. Tola. Assim se sentiu. O que dizer? Como dizer? Os filhos ainda dormiam. Deus, como os amava, pensou. Foi até o espelho do banheiro. Pé ante pé para não despertar a família. A sua família. Estranho. Por um momento se sentiu tão longe de todos. O espelho do armário refletia apenas seus anos de mulher casada. Não via nele seu ventre crescido, mas era como se o encarasse pela primeira vez de forma intensa e aguda. Tinha cinqüenta e dois anos, casara aos vinte e oito. Achou-se terrivelmente feia. Isso era grave, embora se soubesse feia há alguns anos, essa certeza, hoje, doía mais que antes. Antes quando? Quando exatamente se descobriu assim? Não lembrava. Talvez depois do segundo filho, hoje com doze anos. Num gesto mecânico saiu do espelho e sentou-se no sanitário para mijar. Foi quando lembrou do sonho com riqueza de detalhes. Antes não tivesse lembrado. Maldita memória. A cabeça entre as mãos pesou de repente mais que ela mesma. Quis vomitar-se. Fugindo de si mesma e sem usar o papel higiênico correu até a cama. Tropeçou próximo a cama. O marido acordou. Sua cara de espanto lhe causou um desprezo irremediável. Era dela o problema se havia tropeçado. Tropeçara e pronto! Que importava se era madrugada! Que importava se as crianças dormiam! Aliás, de hoje em diante eram dela todos os problemas que viessem a acontecer. Queria-se só. Uma mulher só. Com o ventre crescido, dona-de-casa, feia, cinqüenta e dois anos, quatro filhos e só. E pronto. O resto era com ela. Os anos de telenovela haveriam de servir para algo. Iria se inspirar e teria seu final próprio feliz. No fundo, sempre duvidava dos finais felizes, embora sempre nervosa torcesse por eles e assistisse as reprises no sábado apenas para ter a certeza triunfal de não haver perdido nenhum detalhe entre suas idas e vindas na cozinha sem microondas. Desta vez não poderia haver dúvidas, pois não haveria reprises. Era sua vida em suas mãos gordurosas de mulher separada. Após o espanto do marido naquela madrugada ela sussurrou - Sou só. Essa certeza não lhe permitiria gritar e assim acordar as crianças. Sem pressa. Sem volta. Foi do que falou. Fim.
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2 comentários:
Deito-se cedo, estava derrubado do dia, tomou água antes. Respirou fundo, verificou se o chinelo estava em posição certa, se programara o despertador. Tudo certo. Antes dormia logo, agora não, de maneira que sentia tédio, ou seria receio em dormir, ou melhor, eram nesses minutos antes do dormir que se sentia... ah, não sabia bem como. Sua esposa jazia ao seu lado como uma morta fingida. A tempos eram estranhos e sabia, ela fingia um sono inglório, "se ao menos cançasse". Como finge mal. Se ele, que era ele, demorava para dormir, ela então... Sentia certo orgulhoso de poder ser visto dormindo, lembrou das vezes em que fingia também dormir para ser observado, pensava que sua esposa sentisse um certo carinho ao vê-lo, assim, meio desprotejido. Apesar, apesar, sabia, tinha certeza que era feliz daquele jeito. Sua esposa também seria, pensava: não existiria felicidade se o outro não fosse feliz também. Confiava a felicidade de sua esposa a sua própria e dessa maneira podia dormir tranquilo. Dormiu e percebeu, não sabia ao certo que horas, quando sua esposa levantou-se durante a noite. Amanhão seria um dia difícil, ela resmungaria o dia todo. Pensou: "Quem manda não dormir, era problema dela, mas todo mundo pagará, inclusive euzinho..." Muitas vezes discutiram sobre seus humores... "Amanhã seria um dia daqueles. Amanhã seria um di...zzzzzzzzzzz." Estranhou quando não a viu pela manhã no quarto. O despertador?? Não, estava certo, ainda faltavam 4min. Levou um susto quando não encontrou suas roupas prontas pro trabalho e quase esbravejou quando viu que o café não tava pronto e que a bagunça do outro dia não estava arrumada. "hoje vai ser pior do que imajinei... Deus do céu...".
NÃO CIRRIGI, FOI MAL OS ERROS, DO TIPO IMAJINEI...
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