08/03/2007

Psiu! Silêncio!



É necessário fazer silêncio de si mesmo para permitir vez ao espanto. Insistem em bailar inúmeros pensamentos não-convidados e ainda assim não desconsertam o tempo presente. Fico cismando que essa tal de vida me prometeu plenitude de gente, gestos e gozos. Esse negócio de carpe diem está difícil de cumprir. Hoje vi na parada de ônibus borboletas azuis brilhantes aos milhares. Sem darem-se conta de que estávamos todos ali, foram-se como vieram após desnortear por instantes um cotidiano em inevitável declínio de almas. O trânsito indiferente seguiu seu curso e redistribuiu todos aqueles que não podiam se atrasar. O céu em seguida tornou-se marrom. O vazio do dia era tamanho que ninguém reparou nas borboletas e no marrom do céu. Apenas o menino recuperado da cola ao final da tarde, ria-se em cima da marquise. Riso rasgado, ignorante e fétido. Apenas ele olhava para o céu àquela hora. Iniciava o barulho das portas de comércio descendo. Tudo era pleno do mesmo que o centro comercial das grandes cidades produz. Gente aos milhares que jamais imaginavam sua chegada. Ela chegou, a grande onda chegou. Sem anúncio prévio na TV ela atrasou aqueles que nunca se atrasavam. Ela silenciou quase todos após seus gritos do mais puro espanto. Calaram-se puros e impuros. E então, fez-se finalmente o magnífico silêncio. Milhares de minutos de silêncio denso e pleno.