23/05/2007
Mulher-Diabólica
Rasgou o véu da paciência e disse a si mesmo: – É hoje. Iria se dar bem com aquela mulher que lhe dera bola no último samba. Jovem, bonito, mas não conseguia interessar-se por ninguém há alguns anos. Profunda e estranha solidão era aquela. E nenhum envolvimento lhe interessava se anunciasse algo menor que a paixão. Precisava sentir o feeling erótico do estar-se apaixonado, mas os constantes sonhos molhados lhe impeliam cada vez mais para algo simples, corriqueiro, físico. Então foi direto ao ponto: precisava transar. Um telefonema, e de pronto a mulher disse sim. Estranhou o raro e direto sim feminino. Ela era bonita, mulata quase negra, mas os traços eram afilados como o das mulheres arianas. Os cabelos curtos como os de um soldado. Usava-os espetados com gel à moda punk. O corpo longilíneo escondia-se em calças largas. Sim, tratava-se de uma mulher bonita, mas bonita como muitas, como tantas por aí. Os olhos inquietos revolviam-se agudamente quando ela ria. E ela ria sempre, te tudo, dele sobretudo, desde quando se viram pela primeira vez. Aquilo lhe incomodava no íntimo, pois atingia exatamente o âmago de sua insegurança que poucos percebiam exceto ele mesmo. No terceiro encontro marcaram no apartamento dela. Tudo estava indo bem até aquela altura da noite onde o propósito do encontro se aproxima do desfecho final: o sexo. Falavam de amenidades e a mulher, de uma segurança indiscutível e um corpo que prometia bons momentos, parecia satisfeita. Apenas parecia, pois exatamente a meia-noite, quando já estavam completamente nus no tapete vermelho da sala e as devidas carícias recém trocadas iniciaram, ela começou a gritar de forma absolutamente incoerente e indecente. Ao som de Nina Simone, seus pensamentos já tropos pelas muitas taças de vinho, ele ouvia aqueles grunhidos estranhos, ridiculamente estridentes e pasmava. Depois de aturdidos segundos atirou-se por cima dela e tapando sua boca gritou: - Estás louca?! Cala essa boca! Que merda é essa?! Aquilo tudo tão era desconfortável como ficar nu em público. De nada adiantou, pois ela revolvia a cabeça como se estivesse num transe diabólico e não parava de emitir sons incompreensíveis. Vencido fisicamente ele sentou de lado, recostou-se na parede da sala e exaurido, sem forças para ir embora parou e tentou decifrar a cena. Aqueles gritos o fizeram ficar por um não sei quê de tentar compreender o que se passava na cabeça daquela desconhecida. Ali, bem próximo ao dele, aquele corpo retorcia-se ferozmente e apesar da confusão de sensações ele regozijava-se em silêncio de poder observar numa cadência disforme aquele belo par de seios em diversos e inusitados ângulos. Aquilo o hipnotizou e o fez espectador imóvel. Por vezes ela erguia braços e pernas num frenesi desengonçado de marionete e virando-se num repente brusco elevou a bunda como se quisesse com ela fazer desenhos no teto. Súbito parou de gritar e de se mover. Assim mesmo, sem nenhuma lógica humana. Levantou-se e foi até o banheiro numa cadência de exibição suave. Aturdido, ouvindo o som do chuveiro deitou-se ele também no tapete e entregou-se de vez, sem restrições, aquele acaso insano. Na penumbra imaginou-se vítima de feitiçaria. Quis vingar-se. Idiotamente começou a berrar. De pé na porta da sala, completamente nua, ela o observava e torcia-se de gargalhar. Não agüentando sequer o tempo necessário de acordar o resto da vizinhança, que estranhamente não se manifestara em nenhum momento para protestar o barulho, calou. Ela aproximou-se dele como uma ninfa em sonho etéreo e tal qual gueixa apaixonada sussurrou doce ao seu ouvido: - Agora vamos fazer sexo. E fizeram.
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