20/05/2007
O Prozac, o mar e a liberdade.
Anos rodopiando em volta de si mesma e nunca se enroscava porque não achava o nó. Queria o tombo grande e risível que a faria cair no seu centro fundante. Fazia isso desde sempre. Estava cansada de tudo. E de si mesma, farta. Ter vida simples não era tão simples assim. Queria comer o mundo e explodir em tons de cinza nos dias de profundo tédio. Família, normal. Trabalho, tranqüilo. Era uma doida, pensou. Só podia ser uma loucura que se aproximava devagar e certamente aos cinqüenta a meteriam num sanatório pago pelo estado. Usaria fraldas geriátricas, seria maltratada pelas enfermeiras e se apaixonaria pelo médico recém formado. Mais uma velha ridícula a inspirar piadas de sogras. Drogas? Qual delas? Não surtiam mais o efeito desejado. Então como fazer para diminuir a insatisfação sem nome? Prozac era pouco e pouco era o que ela não queria. Pegou algo pesado. Bem pesado. Depois, sozinha, foi para o mar contemplar as ondas que ajudavam o dia amanhecer. Apesar do desejo de estar só, já se encontravam por lá alguns desportistas de ocasião. Caminhada faz bem para o corpo, pensou, para em seguida decidir - Mas o que vou fazer mesmo é ficar sentada olhando essas ondas e curtindo o efeito da sensação imbecil de liberdade que o mar sempre nos traz. Liberdade era uma palavra tão corrompida que a fez gritar: - Eu odeio a liberdadeeeeeeeeeeee. Porque ela é como eu: não existe. Melhor ir embora, pois a vergonha de si mesma estava voltando bruscamente junto com o retorno da lucidez e isso lhe era insuportável de sentir estando sentada. Por isso precisava estar sempre em movimento. Voltou a pé para casa e no trajeto desejou imensamente ter uma obsessão, qualquer uma.
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