10/05/2007
Tia Socorro da escola municipal
Estranhava o próprio corpo quando olhava para trás. Sempre imaginou cenas de cinema onde pudesse ver o envelhecimento de suas células em intensa velocidade de forma que passados sessenta minutos viria todas as transformações de seu corpo, do nascimento ao presente. Talvez fosse o delírio da embriaguez do dia anterior que lhe relembrou tal pensamento. Se tivesse sido cineasta filmaria. Escolheria diversos corpos e tal como os cientistas americanos, após anos de intensa espera, exibiria ao mundo o envelhecer de gente de diversas origens, de diversos cantos do mundo. Não era cineasta. Era professora. Professora do ensino fundamental em escola do município. E entediava-se facilmente a cada dia. Apesar disso, apegava-se a alguns alunos a cada ano. Não tivera filhos mas seu lado maternal era tão natural quanto seus cabelos quase loiros e olhos verdes de difícil encontro nessas paragens. Chamavam-na de tia na escola. Era a tia loirinha, como disse certa vez Davi, seu pupilo mais querido do ano corrente. O mais querido e o mais inquieto dos alunos. Ela se irritava e se encantava com sua desobediência. No fundo tinha inveja dele. Quisera também, ela, ter sido e permanecido assim: desobediente e inquieta. Não fora. Era boazinha. Era a tia boazinha, a filha boazinha, a neta boazinha da vovó Helena, loira como ela e bisneta de portugueses. Até conhecer Nádia, tia Socorro era assim e exatamente assim: boazinha. Nádia era a nova funcionária da secretaria da escola. Nádia era diferente – pensava ela. Estava sempre vestida de cores vibrantes e olhava nos olhos, assim, direto. Como coisa que não se explica a empatia se deu e Nádia tomou de tal modo conta da vida de Socorro, que o álcool agora era uma constante nos fins de semana. Liberou-se a Socorro. Estava até transando sem amor! Onde já se viu!? Tia Socorro, que antes da escola municipal era tia de catecismos para a primeira comunhão. Quando Nádia foi demitida Tia Socorro esqueceu todos os ensinamentos da escola de freiras só para meninas onde estudou durante anos até a adolescência. Socorro agora tinha até algumas amigas travestis e mudara completamente seu modo de vestir-se. Virou habituée de boite gay e todas as vodcas da noite não lhe bastavam. Forjou licença saúde, meteu o papel na secretaria de educação do município e há meses, graças a Nádia, estava nessa de curtir a vida. Perdera o sorriso cúmplice das mães de ex-alunos. Ganhara estrondosas gargalhadas madrugadas adentro. Socorro um dia, depois de virar a noite vinda da inauguração do novo bordel onde estava trabalhando Nádia, gritou na sala da diretora da escola às sete e trinta da manhã: - “Tia Socorro é a puta que te pariu, sua rapariga”! Virou-se e foi embora para sempre, mas antes viu agarrar-se em suas pernas o menino Davi. Ela agora não tinha mais a imbecil inveja daquela vidinha inquieta de sete anos de idade e o beijou como nunca antes dizendo: - “Não permita nunca que te chamem de bonzinho”. O menino fez cara de interrogação e riu muito dizendo – “A minha Tia Socorro tá bêbada”. Ela riu junto e foi embora. Precisava dormir e curar-se da ressaca, pois hoje iria declarar finalmente seu amor por Nádia.
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