25/03/2007

A ENCOMENDA

Ontem vieram me entregar um corpo, ele vinha em uma caixa comum e já não cheirava bem. No dia em que me mataram achava que era imortal e me vendo ali, em pedaços disformes, deduzi que não. Peguei a caixa e fui enterrá-la no quintal da minha alma, no lugar mais escondido dos olhares da memória. Tive medo que viesse à tona a mesma ânsia de vômito que tive no instante em que me entregaram a caixa. Então, cavei mais fundo, e mais fundo e mais fundo. Não queria estragar com o amargo da morte os próximos beijos de um novo e pleno amor.
Depois que me entregou a caixa virou de costas o entregador. Não tive tempo de agradecê-lo minha morte. Queria dizê-lo que ele me fez enfrentar meu diabo e do quanto eu precisava disso pra entender que não era feliz. Depois que morri ainda pude ouvir ao longe o estalar dos beijos, não aquele que me foi mortal, mas os outros, aqueles que um dia me fizeram crer que eu era imortal, uma amada imortal. Hoje tento ser amante de mim mesma, tornando-me melhor e mais bela pra vida, minha vida. A caixa vai permanecer no meu abismo que não deixo ninguém ver, porque é escuro e triste. E eu vou estar olhando para o céu, aguardando tempos melhores e beijos imortais. Beijos de amantes que não me matem. E por isso hoje ressuscito de ti, mais plena, melhor. Obrigada por ter me matado, me fez ver que minhas mãos sempre estiveram vazias a espera da caixa. Finalmente chegou.

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